Mulher: identidade política

Quando você diz que “ser mulher é uma imposição” isso é produzir uma identidade sobre a mulher. Quando você quer dizer que por “o ser mulher” ser uma imposição isto não constituiria uma forma de identificação: há aí equívoco.

Há identidade sempre: produzimos identidade quando produzimos sentido; se estamos no campo do simbólico e do social, estamos produzindo identidades. Se queremos definir o que é a mulher, estamos mobilizando uma identidade sobre a mulher. Dizer que ser mulher refere-se a condição social de subalternidade é produzir uma forma de identificação sobre ser mulher, vejam só.

Quando fazemos política, quando fazemos circular um discurso feminista sobre a mulher… estamos por representar o sujeito mulher através de processos que criam identidades. Não existe “não se identificar”, já que estamos desde sempre PRODUZINDO identidades em nossos discursos. A questão é saber como produzi-las a partir de um ponto de vista ético e de representação política.

Sabe porque estou escrevendo isso? Porque tem muito discurso transfóbico por aí que tem uma ojeriza pela palavra identidade. E aliás, se utiliza dessa ojeriza pra praticar transfobia.

Tem muita gente que diz que “mulher não é uma identificação” para poder dizer que mulheres trans são homens – como se ser mulher trans se resumisse a uma identidade fora da sociedade. Tem muita gente dizendo que “cisgeneridade não existe” porque gênero não seria sobre identificação, mas tão somente “imposição” ou “violência”.

Vejam então a relação: e quando a violência se estrutura através de como as identidades sociais são hierarquizadas? E quando a violência e exclusão se dão sob como certas identidades são vistas como subalternas e estigmatizadas? E quando falar sobre identidade e violência não são coisas “opostas”, mas justamente necessariamente implicadas e imbricadas?

O discurso de pessoas transfóbicas que tenta excluir pessoas trans da representação política não dá conta disso, ele se esbarra neste equívoco. Identidade não é algo que está pairando num outro mundo das ideias; ao contrário, identidade é um produto simbólico produto das nossas relações sociais concretas.

Falar sobre identidades e “ser mulher” vejam só, não é ou não deveria ser degradante para nós mulheres. Eu me pergunto porque a palavra “identidade” tem ganhado nuances tão pejorativas em certos feminismos. Afinal, os sujeitos trans, aqueles que são tão vistos como típicos possuidores de uma identidade em detrimento de uma suposta “verdade”, não deveriam ser vistos como abjetos.

A verdade sobre o gênero se produz nas relações sociais de identificação social.

Acredito que muito do teor negativo que “identidade” tem no discurso de certos militantes desatentos provém justamente da transfobia que associa o estigma social sobre ser trans – sobre ser doente, uma farsa, uma mentira, etc – à palavra “identidade”. “Identidade” passa a ser sinônimo de “mentira” e até mesmo de um “discurso que veicula mentiras”. Por isso é tão importante trabalhar criticamente estas noções a fim de podermos de fato objetiva-las em nossas análises feministas.

Então, voltando ao ponto sobre a identidade da mulher ser oprimida: isso é parte essencial do nosso discurso de denúncia política. É necessário visibilizar a mulher enquanto sujeito oprimido. Talvez caibam duas observações sobre essa forma de produção identitária da mulher nos feminismos:

1. Entender um sujeito como oprimido não implica reduzir este sujeito à mera relação de poder de sujeição. O sujeito oprimido sofre a opressão mas também resiste a ela. Então é de suma importância promover formas de identificação do sujeito para além de mera sujeição, para visibilizarmos os processos de resistência desses sujeitos.
2. Visibilizar a condição de opressão da mulher não implica num raciocínio pretensamente lógico da exclusão de mulheres trans porque justamente mulheres trans também vivenciam condições sociais de violência tanto específica (cissexista e transfóbica) quanto em comum (as opressões, por serem intersecionais, se estruturam através da totalidade das relações sociais). Não faz o menor sentido, pois, dizer que “ser mulher é sofrer opressão” pra dai concluir que “mulher trans não existe” – como se mulheres trans também não sofressem opressão.

Por Beatriz Pagliarini Bagagli
Imagem destacada: detalhe de Les demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso

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