Não é mimimi, é problematização

Circulando pelas redes sociais, mídias de livre acesso onde as pessoas podem produzir o próprio conteúdo, e não apenas receber informação passivamente, tenho percebido um fenômeno interessante: o tal do mimimi.

Se fôssemos traduzir “mimimi” como verbete de dicionário, ele teria no mínimo algum significado do tipo: “Ato de reclamar de tudo e deixar o mundo chato e politicamente correto porque pode ofender alguém”. Seu antônimo seria: “a problematização dos nossos preconceitos e conceitos inseridos e praticados pela nossa sociedade onde as minorias são ridicularizadas ou invisibilizadas”.

Pois bem, em suas definições contraditórias os pontos de vista sobre o mimimi e a problematização revelam duas posições antagônicas da sociedade: uma que está acostumada a ditar as regras, ou apenas é beneficiada por elas, e por isso não vê problema em como o sistema se comporta, afinal, em time vencedor não se mexe; e a outra, a posição de quem sofre com o sistema propriamente dito, ou que tem empatia para com as pessoas que sofrem com ele.

Assim percebemos, em linhas gerais dois tipos pessoas em relação a qualquer problema social: as que problematizam a situação buscando um melhor entendimento; e as que acham isso bobagem e chamam de MIMIMI.

No entanto, o Mimimi e a problematização vão muito além das nossas discussões em redes sociais: elas são a tradução do sistema dominante tentando mais uma vez manter à margem aqueles que sempre estiveram lá, ou seja, mulheres, negros, indígenas, pobres, LGBT’s, enfim, todos os que não são os detentores seculares do poder e do comando da ordem social brasileira. Um poder muitas vezes justificado pela religião; a ciência que insiste em procurar diferenças biológicas que justifiquem tais dominações; ou qualquer tipo de comportamento que justifique a ordem vigente.

O mais curioso disso tudo, é ver como a ordem vigente é reproduzida por aqueles que teoricamente tem mais livre acesso ao próprio pensamento. Em tempos de internet, onde podemos acessar basicamente qualquer conteúdo, ainda assim muitos de nós em nossas buscas e consumo de informações reproduzimos aquilo que fomos educados a pensar. E isso é logo visto em algumas situações bem marcantes, por exemplo, no texto que eu escrevi “No Brasil sexo gay choca mais que estupro” percebi em alguns lugares comentários do tipo sobre o assunto:

– Eu não tenho nada contra gays, mais não precisava ser explícito, essa hora (23h) tem criança olhando e vendo tv.
– Eu não concordo com isso, sexo não deve ser mostrado na tv, seja homem com homem, mulher com mulher ou homem com mulher.

Eu só peguei esses casos para ilustrar o tipo de situação que ocorre quando minorias ousam fazer-se visíveis. Digo isso, porque eu não vejo o mesmo tipo de manifestação quando aparecem cenas de sexo heterossexual em novela das 18h, ou qualquer outro horário da grade de programação da Globo ou qualquer outro canal. Eu mesma era criança nos anos 90 quando estourou a hiperssexualização infantil através de programas infantis de conteúdo duvidoso com apresentadoras de roupas sensuais eram o modelo feminino, e ouvindo e dançando a “boquinha da garrafa” ou música que contava a história do famigerado “pinto do meu pai”. Quando eu nas tardes de domingo assistia “prova da banheira”, ou às noites de uma terça-feira qualquer assistia às performances da Tiazinha, ninguém quis me proteger, ou proteger a minha inocência. Afinal, eu estava sendo preparada para reproduzir a ordem vigente, ensinada a dispor meu corpo como objeto, objeto de consumo para a sociedade. Mas quando, aparece uma cena de sexo gay na novela, ou um filme Blockbuster como Ghostbusters é estrelado por mulheres empoderadas, aí vem a ordem vigente dizer que isso é a Ditadura Gay e as Feminazis tentando dominar a sociedade. O que ninguém fala é que não existe nenhuma ditadura gay, nem nenhum campo de concentração onde homens são escravizados ou exterminados por feminazis.

Não existe nenhuma ditadura gay, nem nenhum campo de concentração onde homens são escravizados ou exterminados por feminazis…

O que existe são minorias tentando subir à superfície na tentativa de viver em pé de igualdade com aqueles que sempre estiveram no topo, e não apenas sobreviver com as migalhas do sistema. Mas o que o sistema não quer é que haja essa equalização de forças, afinal num sistema de exploração sexual, de escravização e de consumo exacerbado, o que se precisa é de uma massa produtora, para uma elite consumidora de seus corpos, de seu trabalho e de sua vida.

Logo, ao passo em que surgem movimentos organizados de minorias, surgem junto movimentos organizados de manutenção do poder, seguindo a ordem do movimento dialético. E assim seguimos na nova, antiga, e perene discussão do ponto e contraponto, buscando novos ares e novas maneiras de pensar o mundo, e não apenas de sobreviver a ele.

Por Renata Floriano
Imagem destacada: daqui

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