Nome Social: respeito e empatia

Após a publicação de um texto neste blog semana passada, a editora sugeriu que eu escrevesse sobre o nome social a fim de esclarecer seu uso, sobretudo, para as pessoas cisgêneras.

Antes de mais nada, cumpre lembrar que o uso do nome social não é uma questão pacífica dentre as pessoas transgêneras. Uma das principais transativistas do Brasil, Daniela Andrade, se refere a ele, pejorativamente, como um “puxadinho” de cidadania. Isso dá uma dimensão de quão controverso é o nome social.

Mas por que o nome social é considerado um “puxadinho” de cidadania? A principal razão é que trata-se de um paliativo e, como tal, carece de força legal. Vejamos. Você vai ao Instituto Geral de Perícias (IGP), caso aqui do Rio Grande do Sul, e solicita, mediante autodeclaração verbal, a confecção da Carteira de Nome Social. De posse do documento que demora alguns dias para ser entregue, você pensa: “Enfim, vida nova!”.

Infelizmente, não é bem assim. O documento costuma ser aceito apenas nas esferas administrativas públicas. No caso de órgãos e entidades da sociedade civil, consultórios médicos, planos de saúde, escolas, bancos e outros locais, é preciso se ir à luta. Por exemplo, dentre os bancos que existem em nosso país, tenho conhecimento de que apenas um – o Banco do Brasil – permite que pessoas transgêneras usem seus nomes sociais nos cartões de débito e crédito. Entretanto, internamente, fica registrado o nome civil no cadastro.

Por não ter valor legal, as pessoas transgêneras costumam ser submetidas à situações bizarras, como ser internada em alas contrárias ao gênero autopercebido. Em 2015, por exemplo, fui internada em um quarto com um homem em um hospital, pois considerou-se apenas o nome civil. Médicos, de forma geral, não costumam ter muita preocupação com o que consideram ser “detalhes” – aliás, não sei desde quando tratar alguém com o devido respeito é um mero detalhe.

Possuir um nome social em um cartão do SUS, é ser passível de discriminação dentro de consultório médico dentro de UBS. A título de ilustração, relatarei um episódio que aconteceu comigo, quando precisei de uma consulta com uma clínica geral para obter uma receita de medicação controlada.

No caso em questão, fui à UBS e agendei a consulta com meu nome social, afinal, em meu cartão do SUS era o que constava. No consultório, por outro lado, a médica não ficou nem um pouco satisfeita quando observei que a receita deveria ser preenchida com meu então nome civil. “Você não tem o direito de usar esse nome”, foi o que, em síntese, a médica afirmou. Além disso, sugeriu que eu procurasse à Prefeitura para fazer um novo cartão do SUS! Ou seja: um exemplo de total despreparo no que concerne ao atendimento de uma pessoa transgênera!

Aliás, esse é um dos principais motivos pelos quais pessoas transgêneras possuem certa resistência em visitar consultórios médicos. Uma situação muito estressante é um homem trans precisar visitar um ginecologista; assim como uma mulher trans visitar uma mastologista. Além do estresse, tem a questão da perda de tempo para explicar aquilo que deveria ser óbvio. Isso sem falar no constrangimento do/a paciente e no despreparo do/da médico/a.

Não é apenas na área médica que se precisa lutar pelo reconhecimento da própria identidade

Infelizmente, não é apenas na área médica que se precisa lutar pelo reconhecimento da própria identidade. No comércio e na área de serviços é também necessário explicar a situação, além de ser preciso ter muito tato para argumentar e defender seu ponto de vista. E é aí que entra uma palavrinha mágica e que, muitas vezes, faz a diferença: empatia!

Mas e como se faz para conquistar a empatia? Sim, porque a empatia é uma questão de conquista. Afinal, a regra é que a sociedade considere todas aquelas pessoas desviantes da “norma” como marginais e, por conseguinte, como cidadãs de segunda categoria para baixo. Inclusive, isso explica porque o Brasil é o campeão mundial de assassinato de pessoas transexuais.

O segredo, enfim, é o seguinte: procurar, na medida do possível, ao se relacionar com pessoas desconhecidas, chegar com um sorriso aberto, cumprimentá-la de forma educada (Olá? Tudo bem? Qual é o teu nome?) a fim de criar proximidade. Ser solícito agradecer, despedir-se. Dar “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Cumprimentar prestadores de serviços como motoristas, cobradores, garis, balconistas, vendedores/as sempre com sorriso e de forma educada. Por que não demonstra se importar com as pessoas, se dizemos nos importar com as pessoas?

Para encerrar, digo que essa foi a estratégia que passei a adotar a fim de evitar ser discriminada. Além de ter tido êxito na maior parte das vezes, acreditem, isso acabou por contribuir para que eu me tornasse uma pessoa melhor.

Há quem diga que, a versão pré-Luíza de mim era carrancuda e nem um pouco simpática, mas que tudo mudou após o surgimento dela. Hoje me veem como uma pessoa alegre e bem humorada. Independente disso, o que realmente importa é que eu estou em paz com a minha consciência e de muito bem comigo!

Por isso, não custa reiterar: tenhamos mais empatia. Obrigada.

Por Luíza Eduarda dos Santos

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