O falo, o pênis, a neca

esse é um texto pro qual vou pedir atenção, mesmo. apesar de ser longo.

enquanto feministas, é importante sim a gente discutir
falocentrismo
é importante, sim, a gente entender que historicamente
corpos com bucetas
foram vilanizados, estigmatizados, distorcidos, mal-compreendidos
ao longo da história –
gerando estigma e incompreensão
sobre o que as bucetas – enquanto parte do corpo – de fato são.

dentro de um contexto de heterosexualidade (cis) compulsória,
bucetas foram reduzidas a um órgão sexual cuja únicas funções eram: (1) proporcionar prazer para homens cis. (2) reprodução.
qualquer outro aspecto que fugisse a isso, foi sendo invisibilizado, e até estigmatizado – construindo uma cultura de desconhecimento e repulsa a essa parte do corpo.

esse estigma e incompreensão fez e faz com que muitas mulheres cisgêneras, homens trans e pessoas não-binárias sintam vergonha sobre essa parte de seu corpo,
e tenham pouco conhecimento sobre ela,
o que implica
desde situações que levam a problemas de saúde ginecológica,
até um desconhecimento sobre aquilo que pode lhes proporcionar prazer a nível sexual

(p.s: lembrando aqui que sexualidades são também diversas, e nem todas pessoas sentem prazer erótico através da genitália)

tudo isso, dentre muitas outras questões que eu não conseguiria esgotar aqui – seja por questões de vivência, seja porque esse é um assunto extremamente muito mais amplo do que um textão de internet consegue dar conta.
e aqui falando dum contexto localizado no Brasil.

esse estigma, constrói por contraste uma cultura falocêntrica – onde o órgão sexual conhecido por “pênis”, ou pau, ou piroca, seria então investido como símbolo de poder.

e nesse sentido, uma das pautas bem centrais no feminismo
tem sido a de empoderar corpos com buceta.
seja no sentido de proporcionar mais educação, consciência, desconstruindo mitos e desinformações sobre essa parte do corpo –
seja no sentido de construir outras representações, outras narrativas,
que ajudem a (se) gostar mais nessa parte

a questão, porém, é que o falocentrismo não proporciona o estatuto de poder indiscriminadamente a todos os corpos com pênis –
e sim somente, e apenas, ao corpo de homens Cisgêneros.

o falocentrismo opera dentro, e somente dentro, de uma intersecção entre machismo e Cisnormatividade – entre misoginia e transfobia.

de modo que se torna impossível dizer – sobre a neca de travestis e mulheres trans – que essa parte do corpo nos proporciona diretamente todos os privilégios de uma sociedade falocêntrica.

a gente vive no Brasil – o país que mais mata travestis e pessoas trans. um país onde
tem travesti e mulher trans sendo literalmente caçada,
sendo torturadas e mortas
com requintes de crueldade,
tendo a genitália inclusive arrancada do corpo
por ser uma mulher
“com pau”.

“pau”, no nosso corpo,
não é vivido como algo que nos dá poder – e sim como algo que nos envergonha, algo que a gente precisa esconder,
porque supostamente nega a mulher que nós somos,
revelando o “desvio” à natureza dos nossos corpos.

tem travesti/mina trans que se machuca horrores
no processo de aqüendar (esconder) a neca – e parece que é ok, que é “natural” sobre ser quem a gente é,
mas não devia.

***Eu pessoalmente às vezes até gosto de renomear as coisas, sabe?
porque pra mim, nessa cultura falocêntrica,
quem tem pau, quem tem Falo – nesse sentido de um órgão sexual ao qual se atribui poder –
é homem cis.

Travesti e mulher trans não tem pau:
tem neca,
anatomicamente muito parecida com o pau de homens cis,
mas com a diferença que aos nossos corpos
essa sociedade não atribui poder
e sim nojo, abejção. ***

quando a gente sai com qualquer pessoa que a gente conhece pela internet
a gente precisa ter certeza
que a outra pessoa sabe que a gente é trans.
porque se a outra pessoa não souber, a gente corre risco de sofrer violência.

se uma pessoa fica com a gente achando que é cis,
e lá pelas tantas descobre que a gente tem neca,
ela não vai
“comemorar” por ser um órgão fálico e poderoso – essa pessoa vai é ficar com nojo, desgosto,
se for homem cis
tem uma chance ainda maior dessa pessoa nos violentar.

o que tanta gente chama de “disforia genital” – o desgosto que tantas de nós criam por essa parte do corpo – não é algo individual, coisa da cabeça… é puro EFEITO INTROJETADO
de uma sociedade misógina e transfóbica
que nos ensina a odiar nossos corpos.

então assim: gerar informação e empoderamento a todos os corpos com buceta
é importante,
e é necessário SIM.
(lembrando aqui que homens trans e pessoas não-binárias EXISTEM – não são só mulheres que tem buceta).

mas também cabe lembrar que, quando cês falam de “falocentrismo” sem recortes,
como se fosse algo que dissesse respeito automaticamente a todos os corpos só por “terem pênis” –
vocês contribuem pra um apagamento sobre a realidade vivida
por outras mulheres – as que não têm buceta, mas que
nem por isso vivem por si só desde uma condição de privilégio.

e isso contribui pra reprodução da transfobia.

então,
a nossa luta
NÃO É
e NUNCA FOI
pra que pare de se falar sobre buceta, de gerar informação sobre bucetas, de empoderar bucetas.

Nossa luta é pra que – CONTINUANDO tudo isso – nós possamos ir além
e falar sobre outros corpos
que desviam da norma cisgênera sobre o que significa ser uma mulher
(e sobre o que significa ser homem também – contemplando a existência daqueles que são trans).

pessoas trans NUNCA
nunquinha
nos engajamos coletivamente pra que pare de se falar sobre bucetas.
Somente e apenas nos posicionamos pra que tudo isso possa se desenrolar
sem nos apagar.

Enfim. Era só isso mesmo.
To aqui aberta pra ouvir e repensar sobre qualquer das informações que escrevi acima.

um beijo bem transfeminista pra todas las cuerpas.

Por Raíssa Éris Grimm
Imagem destacada: Louise Bourgeois. Sleep II, 1967. © Collection The Easton Foundation Photo: Christopher Burke, ©The Easton Foundation / Licensed by BUS 2015 (Via Art Territory)

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