O meu abusador morreu

Sábado passado um amigo me enviou pelo WhatAspp o print de uma notícia da cidade em que morei durante a adolescência. Era a notícia da morte de uma pessoa importante na cidade. Morreu em consequência de um câncer. Ele fundou a APAE da cidade, era ex-professor e ex-político, adorado por todos, simpático, prestativo. Ele preenchia todos os quesitos para ser considerado um bom moço.

Menos um.

Ele era um pedófilo e eu fui uma de suas vítimas.

Poucas pessoas sabem da história do abuso que sofri por parte dele. Uma delas é o amigo que me enviou a notícia e foi por isso que ele a enviou para mim.

Nossa conversa foi mais ou menos assim:

*recebe print*
– Olha quem morreu.
– Vai tarde e espero do fundo do meu coração que ele esteja no colo do capeta.
– Esse também é meu sentimento.

E eu fiquei o dia todo remoendo a notícia. Minha vontade era gritar o meu alívio, mas como fazer isso de maneira sutil?

Eis que resolvi compartilhar a notícia e comentar que: se existe justiça divina, esperava que ele estivesse no colo do capeta.

Essa postagem foi parar num grupo de WhatsApp da cidade e causou um pequeno alvoroço, afinal, as pessoas ficaram sem entender o motivo que levaria alguém a escrever uma postagem daquela sobre um homem tão bom.

Entre uma conversa e outra com meu amigo, ele me disse que pessoas me atacaram no grupo, outras me defenderam e que ele foi quem mais me defendeu, como se o abuso tivesse sido cometido contra uma filha dele.

No meio dessas conversas no grupo de WhatsApp, uma amiga minha disse: eu conheço ela, ela é revoltada com tudo.

Tentando justificar a minha postagem.

Essa mesma amiga veio no meu inbox perguntar o que me motivou a escrever aquilo. Minha resposta foi curta e grossa: ele era um pedófilo e fui vítima dele. Fim.

E ela tentou minimizar o abuso dizendo que ele pagou tudo o que tinha que pagar, pois sofreu muito com o câncer.

Pra mim, que fui abusada por ele, ele sofreu foi é pouco. Sei de quem teve trauma psicológico severo por conta do abuso sexual por parte dele. E aí vem uma pessoa me dizer que “tudo bem, precisa relevar, ele sofreu bastante, pagou pelos seus atos”. Não mesmo, meu bem. Amizade desfeita e bloqueada por motivo de: não sou obrigada.

Uma e outra pessoa veio conversar comigo e dizer que me entendia e que não conseguiria guardar isso por mais de 20 fucking anos.

Na segunda-feira seguinte recebi uma mensagem no Facebook de uma pessoa, que nunca vi na vida, dizendo que não me conhecia e não entendia o motivo de eu ter feito um post sarcástico. Eu não iria responder, mas respondi: exatamente, você não me conhece, não sabe os detalhes do fato, vai continuar sem me conhecer. Você apenas não consegue digerir que o bom moço não é tão bom moço assim.

No fim, me sinto aliviada. Mas que ele foi tarde, ah… isso foi.

Por Fran Ruiz
Imagem destacada: Jack B. Yeats – The Swinford Funeral

Comments

Comentários