Olá, eu não quero ser mãe

Senta aí, vamos conversar.

É isso mesmo: eu não quero ser mãe.

Nada contra… até tenho amigas que são.

Talvez você nunca tenha ouvido uma mulher dizer isso. Mas eu explico o porquê: parece um crime ter nascido com um útero e não querer utilizá-lo. Talvez você esteja lendo isso e pensando: “Mas que absurdo! Depois Deus castiga essa mulher…”. A sociedade superestima a dádiva de ter filhos, o homem objetifica a mulher e muitas vezes a abandona à mercê da sorte com as crianças a tira colo, Deus condena a pobre coitada, a saúde pública não a assiste, os direitos são poucos e os deveres são muitos, mas ai de você se disser que prefere não ser mãe.

É como se mulheres “não-mães” fossem menos.

Menos mulheres, menos humanas, menos merecedoras. Talvez isso se deva ao mistério glorioso que envolve a criação e divide as mulheres em dois grupos completamente opostos: as imaculadas cidadãs de bem que pariram junto à criança o segredo da vida e as outras: as ignorantes, aquelas que não tiveram a honra de ver o mundo pelo prisma dos filhos.

Mas eu vou contar um segredo: eu não tenho filhos, não pretendo tê-los e me sinto completa, sim. É uma questão de escolha, sabe?!

Meu corpo, minhas regras. Afinal, eu sou. Não preciso de outro ser para reafirmar que sou.

Reproduzir-se é um processo biológico, não define caráter. Ter filhos não torna ninguém melhor do que o outro, não reseta a maldade, não formata o seu julgamento. Há pessoas boas e ruins com e sem filhos.

Pode ser a descoberta da felicidade para muitas, mas não pode ser o único caminho! Feliz daquela que se alegra de fato com a maternidade, mas não queira que todas o façam. Não precisa e não deve ser uma obrigação para mulher alguma.

E às mães que me leem agora, deixo apenas um apelo: criem suas meninas para serem boas mães, se elas quiserem; mas também criem para que sejam outras coisas, para que sejam o que elas quiserem e até para que não sejam!

Eduquem-nas para que saibam que essa é uma escolha que depende somente delas e que não deve ser implantada em suas cabecinhas inocentes como verdade única e absoluta.

Não façam delas submissas e não depositem nos ombros delas o dever inglório de viver apenas para parir.

Por Angélica Manenti
Imagem destacada: escultura de Louise Bourgeois

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