Palavras, significados e o presidente

Por que Jair Bolsonaro fala o que fala: é tudo sobre significados de palavras, e a mudança deles.

A importância de estudar História, ler literatura de ficção e não ficção, ler jornal, ler análises e ouvir especialistas, e fazer isso, e muito, e a vida toda, é justamente saber RECONHECER as ciladas quando elas aparecem. É por isso que a maioria das pessoas não enxerga os problemas de cercear liberdade de imprensa, ou não saca as nuances do discurso do presidente eleito, a semiótica, etc.

Mas nada do que está acontecendo é novo. Já aconteceu de verdade, em governos populistas e com características ditatoriais; já foi projetado na ficção por gente inteligente como George Orwell, que escreveu 1984, uma alegoria brilhante para o que está acontecendo. Mas dá pra olhar pra Alemanha da II Guerra, também. Ou para o filme A Onda. Ou para a série Black Mirror. Ou sei lá quantas centenas de obras de ficção. Sério, tá tudo lá. Mas fiz um resumo da propaganda Bolsonarista num bê-a-bá pra quem não tá sacando:

  1. “Vou livrar o país da militância, de movimentos sociais”. A primeira coisa que essa frase faz é automaticamente negativar o significado desses termos. Ninguém se livra do que é bom. Militância e movimentos sociais são historicamente associados com a esquerda, e esse tipo de frase ajuda a demonizar qualquer coisa associada a esquerda. Acontece que MBL é um grupo militante, e qualquer grupo que apoie pessoas (digamos, uma ONG que ajuda crianças cadeirantes) é um movimento social. Ou seja: não há nada de errado com nenhum dos dois. O lance é que, ao se afastar desses termos, Bolsonaro garante a visão de que não há NADA POSSÍVEL além DELE e de APOIÁ-LO. Tipo, apoiá-lo é o normal, o natural. Se é militância, se é movimento social, que é de esquerda, então não é natural, tem “motivações políticas”(dããr), e é ruim. Se é militância é ruim e pode (deve) ser eliminado, e é por isso que ele só chama de militância o que é de esquerda. Sacou? Ou você o apoia (que é o “ser brasileiro” hoje), ou você é tudo que se associa ao termo esquerda no Brasil hoje (burro, idiota útil, vagabundo, preguiçoso, hipócrita, ladrão, psicopata, etc) — inclusive “militante” ou “movimento social”.
  2. Repare que nunca há “oposição”. Nem Bolsonaro nem parte da imprensa fala em “oposição”. Na Jovem Pan, por exemplo, frequentemente o termo usado é “esquerdistas”, “petistas” ou “lulistas” para qualquer ator social que manifeste oposição ao Bolsonaro e seus ideais. A própria Rachel Sheherazade, quando falou contra o Bolsonaro, virou socialista no discurso do governo e dos apoiadores. É que “oposição” é semanticamente neutro: passa a ideia de que os dois lados são legítimos. Se é neutro, há margem pra crítica (ele odeia ser criticado, o Bolsonaro — o que confirma a fragilidade de tudo); se é neutro, é natural que os dois lados cometam erros e acertos. No entanto, ele quer transmitir a ideia de que há um lado absolutamente certo e outro que é tudo que há de mau no mundo (até porque o lado do “bem” não comete erros e, se comete, podem ser relativizados, porque é o “bem”). E nesse caso, não dá pra ser neutro, daí o termo oposição não serve. Precisa ser algo que transmita conceitos negativos pra se caracterizar como inimigo (petista, esquerdista, socialista, lulista, lixo, ladrão, pilantra, vagabundo etc).
  3. “A partir de hoje, o Brasil está livre do socialismo” ou algo nesse sentido: essa é especial. Veja, você só consegue convencer disso alguém que NÃO SABE o que é socialismo. Se não sabe, não tem referência intelectual ou cultural, não estudou história etc. OK, tem uma parcela ampla da população, em todas as faixas de renda e educação, que se encaixa nesse espectro. Então fica fácil. O lance é o seguinte: Bolsonaro precisa ressignificar a realidade. A gente entende a realidade por meio dos signos que nos permitem comunicá-la. Ele já começou a fazer cagada e vai continuar fazendo, muitas, porque não há nada de diferente no governo dele em comparação a governos anteriores (exceto, bem, tudo isso que eu estou listando). O problema é que ele SE ELEGEU em cima do discurso de ser um outsider, diferente, e a base que o apoia tem essa demanda como um ponto muito forte. Ou seja: ele PRECISA ser diferente, demonstrar essa diferença e garanti-la. O único jeito de garantir isso 100% é ressignificando a narrativa do período anterior. Se você não tem nada de especial e inclusive está fazendo a mesma coisa que todo mundo já fez, e se você não pode mudar o que aconteceu, mas precisa se diferenciar, o jeito mais eficiente é contar uma história diferente sobre o que aconteceu até as pessoas acreditarem (aí, a rigor, você muda o que aconteceu). Você já convenceu todo mundo que o socialismo é o que de pior pode existir — agora, diga que antes vivíamos no socialismo. Repita até virar verdade. E aí, qualquer coisa que você fizer vai ser melhor do que o que aconteceu antes, porque o que aconteceu antes é o socialismo, e não há nada pior que o socialismo. É isso.

nada do que está acontecendo é novo

Veja, antes era “o PT VAI TRANSFORMAR o Brasil na Venezuela, por isso precisamos tirá-lo”. Depois foi “muita corrupção, PT é o mais corrupto, culpa do PT, precisamos tirá-lo” (corrupção = PT, não corrupção = sem PT). “PT divide o país, precisamos tirá-lo”.

Depois, quando se torna conveniente, a narrativa muda e aprofunda. “Não, o Brasil JÁ ESTAVA socialista! Sim, socialista! Socialismo é tudo que há de ruim no mundo. Se é ruim, é socialista. E como você sabe, nós odiamos socialismo. Então o que fazemos não é socialismo. E se não é socialismo, não é ruim! E é diferente do que o PT fazia, porque o PT era socialista.”.

Parece IDIOTA, eu sei. Descrito assim, fica super simplificado, parece simplista, mas é justamente por isso que é chocante, porque o silogismo é justamente esse. E FUNCIONA, como vocês podem notar olhando em volta. É claro que só funciona se as pessoas desconhecem o significado das palavras.

Por exemplo, se todo mundo estudou História e entende o que constitui socialismo, se todo mundo tem noção de civilidade e entende 100% o que significa corrupção (basicamente: qualquer contexto em que a gente usa o que é público e/ou coletivo para interesses privados, qualquer um); se as pessoas entendem do sistema político e entendem como funciona troca de favores políticos no Congresso — aí é mais difícil desse processo colar. E mesmo assim não é impossível; é só ir fazendo uma narrativa transitória, passo a passo, pra mudar a percepção e ressignificar tudo pouco a pouco.

Outro exemplo. Todo mundo sabe o que é a cor verde e o que é a cor vermelha. Se alguém chegar e apontar para algo verde dizendo “isso é vermelho”, não cola. Mas se você passar anos falando, aí um lunático de Bornéu chega e diz que você tem razão e que em Bornéu todo mundo concorda, aí vem outro doido que vê você ganhando espaço e mente dizendo que é claro que aquilo é vermelho, aí vem mais um grupo e conta uma história sobre como verdes e vermelhos são próximos mas nosso olho não enxerga e bla bla bla… De repente, tá todo mundo dizendo que não acredita nem desacredita. Depois, que a verdade não é absoluta, que há dois lados. Mais um pouco e chegamos em sim, é vermelho, claro que é, sempre foi. Verde? Nem existe isso. É um pouco como “A Nova Roupa do Imperador”.

Você não sabe o que é “A Nova Roupa do Imperador”? Exato. Meu ponto é justamente esse. Nada é novo. Tudo já foi feito antes, com outras ferramentas, por outros canais. É por isso que arte e literatura e educação são importantes: funcionam como referência pra gente reconhecer ciladas na vida.

Entre Bolsonaristas, como em “A Nova Roupa do Imperador”, há apenas os que enganam e os que estão sendo enganados — embora os que enganam tenham várias razões pra isso, os que são enganados também, e às vezes as pessoas são enganadas e enganam ao mesmo tempo.

Você, que ainda não enxergou tudo isso: você engana, é enganado ou um pouco dos dois?

Por Ana Paula Freitas
Imagem destacada: via Ignição Digital

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