Por que não acreditamos nas mulheres?

Quando uma mulher denuncia abuso, sempre aparecem pessoas dizendo: “Ah, mas o cara abusou de uma mulher só? E sem provas? Estranho, precisa ver isso direito”.

Agora aparecem 500 mulheres e o discurso passa a ser: “Ah, 500 mulheres? Tudo isso? E só agora elas decidiram falar? Estranho, precisa ver isso direito”.

Não tem saída. Abuso sexual é um crime que quase sempre ocorre em ambiente privado, sem testemunhas. É difícil provar. Mas não conheço nenhum crime em que a vítima tenha que arcar com todo o peso das provas como no caso de estupro e abuso sexual.

Uma pessoa denuncia um assalto, sem que tenha havido testemunhas, e ninguém pede trocentas provas para ela, certo? Ou alguém já ouviu um delegado perguntar: “o que você estava fazendo na rua sozinho? Tem provas de que estava com a carteira no momento do crime? O ladrão deixou alguma marca que comprove a violência?”.

O fato é que não queremos aceitar que há abusadores aos montes.

Não queremos lidar com isso, não queremos entender que nossa cultura protege esses homens, que eles só conseguem cometer abusos, muitas vezes por anos, porque contam com a conivência de toda a sociedade.

Abuso sexual é um problema nosso, de todos nós. Ou a gente cria mecanismos eficazes de prevenção, denúncia e investigação e pensa formas de lidar com abusadores ou vamos encarar que não achamos assim tão grave que homens abusem de mulheres.

Aos que dizem que é preciso conter a sanha punitivista que encontra eco nas redes sociais (e não só), eu acho que ela só aumenta a cada vez que vítimas de abuso são desacreditadas.

Ninguém quer enfiar inocentes na cadeia, nem diz que casos de abuso não devem ser investigados e tratados segundo as leis. O que entristece é ver saltar aos olhos a hipocrisia dos que dizem repudiar o crime, mas são os primeiros a lançar todo tipo de dúvidas sempre que surgem denúncias. Todas as vezes.

Por Mariana Varella
Imagem: arte sobre arte de Narváez Art

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