Pró-vida e pela descriminalização do aborto

Acusam-me de ser uma farsa por me dizer “pró-vida” e defender a descriminalização do aborto.

Pró-morte é quem joga centenas de milhares de mulheres para a fogueira da solidão, do medo, do risco e da dor quando precisam de um aborto;

Pró-morte é quem compactua com a morte de muitas delas, usualmente multíparas, pagando com suas vidas a anticoncepção que falha e deixando crianças órfãs;

Pró-morte é quem acha que o aborto que fez ou ajudou alguém a fazer tinha uma boa justificativa, mas que as demais pessoas sempre são vadias;

Pró-morte é quem não colabora para um sistema que viabilize o aborto precoce, evitando cenários lamentáveis para todos em abortos tardios;

Pró-morte é quem não entende que o aborto sempre aconteceu e continuará acontecendo. Precisamos discutir como fazer com que ele aconteça de forma mais segura e com assistência que ajude a evitar uma nova gestação;

Pró-morte é quem, hipocritamente, denuncia uma mulher desesperada que fez o aborto ao ministério público para ser massacrada em um júri popular e presa por anos. Sim, há várias mulheres presas;

Pró-morte é quem não se indigna com a assimetria de riscos e sofrimentos a que a mulher e o homem que engravidaram e desejam abortar estão sujeitos;

Pró-morte é quem não percebe que, infelizmente, as mulheres ainda hoje estão sujeitas a muitas relações sexuais sem consentimento. Homens conhecidos e desconhecidos, nossos parceiros, amigos ou parentes, na força ou na pressão psicológica nos obrigam a relações sexuais indesejadas e muitas vezes sem contracepção;

Pró-morte é que não percebe que a situação é tão desesperada que as mulheres que abortam usualmente estão colocando suas vidas em risco junto, assumindo claramente que, no contexto em que vivem, é melhor morrerem do que levarem aquela gestação adiante. Quem escolhe o aborto precisa de ajuda, não de julgamento;

Pró-morte é quem, mesmo não concordando com o aborto, nega ajuda a quem a pede, ao humano que está na sua frente, com história, filhos, emoções e medo em nome de um embrião que ainda está primitivamente desenvolvido, e apenas (ainda) um vir a ser. Se estas mesmas pessoas estivessem, de fato, preocupadas com os embriões, seriam contra a inseminação artificial fofinha da amiga rica (afinal, também descarta embriões como num aborto). Mas não, ser contra o aborto é abraçar a hipocrisia de se dizer “a favor da vida” quando, na verdade, está preocupada em punir as mulheres com vida sexual ativa.

Eu sou pró-vida. Eu sou a favor do acesso ao aborto.

Nego-me a deixar esta expressão a quem trabalha ativamente para a perpetuação da dor, da morte, da solidão, da humilhação, da falta de assistência e cria um contexto onde esta mulher nunca vai poder franca e solidariamente buscar ajuda para evitar novas gestações. Vamos ouvir mais e julgar menos?

Por Raquel Marques
Imagem destacada: detalhe de bordado de Eunice Choi

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