Quem pode falar?

Clodovil podia falar no Congresso porque não incomodava, reproduzia um modelo cômico e estereotipado do homossexual feminilizado. Já Jean Wyllys incomoda, porque representa luta, porque tem história, voz e projetos.

Lendo Baderna: Putafeminista, da Monique Prada, compreendi que a mesma lógica opera sobre a figura da trabalhadora sexual. Ela é bemquista no patriarcado, desde que invisível e muda.

Ela subverte a exploração sobre as mulheres, que tradicionalmente cuidam da casa, dos filhos e atendem necessidades sexuais sem cobrar por isso. Ela cobra, e se empodera financeiramente. O único poder concreto no capitalismo.

Mulheres não putas temem as putas, temem ser confundidas com putas, numa sociedade que divide as mulheres em putas e não-putas. As não-putas são chamadas de putas quando convém ao patriarcado com objetivo de desqualificá-las. Algumas não-putas têm consciência disso, como é o caso do movimento que deu origem à marcha das vadias.

E por que toda mulher é passível de ser chamada de puta? Em uma sociedade que venera a figura da Virgem Maria, mãe de deus – uma mulher que, vejam bem, deu a luz sem fazer sexo, qualquer outra é passível de ser chamada de puta, impura, vagabunda e todos os outros impropérios comumente usados.

Leiam as putas. Leiam Gabriela Leite, seu livro Filha, Mãe, Avó e Puta; leiam Santuzza de Souza e leiam a Monique Prada e revejam seus conceitos a respeito da prostituição e da gerência das mulheres sobre seu próprio corpo.

Por Ana Cardoso
Imagem destacada: via Editora Veneta

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