Resenha: Novas contistas da literatura brasileira

O livro Novas contistas da literatura brasileira foi lançado na cidade de Porto Alegre, no dia 14 de abril de 2018. O que dizer de um livro que teve como principal intenção, OUSAR?

Ousou ao trazer para o mundo literário novas contistas da literatura brasileira; ousou ao acreditar, que apesar de existir uma enorme carga de escritas que podemos chamar de lixo, poderia encontrar pessoas com condições de ser a boca de muitos, através da caneta!

Escrever é sem dúvida uma arte. Não aquele simples gesto de tomar posse de uma caneta, uma máquina de escrever, um computador, um tablet, um IPAD e tantas outras ferramentas tecnológicas, e expor o que vai na alma. Escrever e levar outros às incríveis viagens literárias, exige mais do que talento, exige vocação!

Sim, li o livro e fui impactada com cada descrição dos contos! Uns mais profundos, outros mais intensos, tristes, inebriantes, emocionantes, aterrorizantes, fortes, sensíveis… não importa: todos geraram o prazer necessário para estar ali lendo e foram capazes de me levar a viver cada contexto, cada história, cada momento!

Os contos, em sua grande maioria, foram surpreendentes. Profundos e elegantes, com um toque de sofisticação e mistério, fazendo o leitor pensar, do início ao fim, no desenrolar de cada história depois de cada ponto, que não pareceu ser o final. Cada texto foi capaz de deixar acesa na alma do leitor a sede em querer viajar mais, muito mais… Cada conto objetivava trazer a sua mensagem e não decepcionaram!

Quantas vezes, como seres humanos, falhamos e acabamos carregando na alma os traumas provenientes das inúmeras situações travadas na infância, a exemplo do texto “Lorde Shake, o Fúnebre”? Somos atingidos de tal maneira, que o sentimento que invade o nosso ser conduz fria e assustadoramente toda a nossa vida.

Pessoas simples vivendo à margem da sociedade que carregam sobre seus ombros o estigma de que por mais que se esforcem vão levar sempre consigo as marcas de um passado sombrio ou que nada pode mudar, que não podemos ser diferentes vivendo nos guetos, nas comunidades nas ruas, como o que ocorreu no texto “Tenho Fome”. Uma fome que não se limita a um prato de comida, mas, de Justiça social. Ou nos confrontando com a verdade de que o “Início é Você quem escolhe”. Ou, ainda, que as decepções, as cinzas que tiram o colorido de nossas vidas podem nos conduzir à ruína, ceifando a vida daqueles que estão a sua volta e a si mesmo, como no texto “Quarta-feira de Cinzas”.

Trazer novas contistas ao ao palco literário é oxigenar, por vias transversas, o mundo.

Os textos levam a pensar em relações profundas, como por exemplo entre a neta e a avó que ensina tudo o que sabe, como uma sábia mulher. A voz da experiência, que investe um longo tempo para compartilhar conhecimento, especialmente, suas crendices que congelam, tiram o fôlego ou limitam como a experiencia vivenciada no texto “Presságio”.

Ademais, se retratam quando os rótulos podem conduzir à vida das outras pessoas, que mesmo sem nos conhecer, acham que sabem quem somos e optam por minar as nossas vidas, porque o existir deste alguém, aos olhos de muitos, contamina o mundo e desvirtua vidas. Logo, não devem permanecer aqui. Como no texto “Não volte para casa”. Texto este que retratou a dura realidade das famílias dilacerada pelo vício, o desamor, o desrespeito, a humilhação, a violência que criam e alimentam o ódio e a revolta, em um coração que só queria sonhar e avançar a passos largos para ir além dos muros de seus cárceres. Texto que tratou das memórias.

Memórias que fazem lembrar que tempo não para, que já fomos crianças cheias de esperanças de um mundo melhor, que amigos vão e vêm, que é possível cultivar a criança em de nós, e prosseguir mesmo diante do texto que narra sobre “As Curvas do Tempo”, nos descortinando a realidade que as fases passam e a curva vem.

E como loucos, perdidos e sem rumo, muitas vezes, por muito tempo, sequer sabemos onde estamos, o que fazermos, que dirá saberemos “Onde deixei minhas lembranças” e o espelho, não tão amigo me resposta, diz o texto a frase no – tudo é um só tempo – e reencontrei as lembranças. Há tantos mistérios na alma humana que nem mesmo os mais sensíveis escritores conseguem revelar, vivemos cheios de áreas secretas e como o texto diz caminhamos em “Segredos”. E a riqueza dos textos segue…

Trazer novas contistas ao mundo da literatura, ao palco literário, ao mundo virtual de nossas mentes de leitor é oxigenar, por vias transversas, o mundo. Propondo alguns novos e instigantes textos. E, ainda outros temas sempre debatidos nas rodas dos detentores do poder, nos bares, nas ruas, nas esquinas, na música, no mundo das ideias que assolam a sociedade e nos fazem fracos diante do silêncio que não gera mudança.

É preciso sim, de uma nova roupagem e visão para temas como de eutanásia, da marginalização para com aqueles que moram nas comunidades ou vivem nos guetos, ainda que nos grandes centros. Das minorias, da morte, da dúvida existencial, dos flagelos da vida, da depravação social, do tempo que suga a vida; dos pequenos conflitos existenciais, familiares e sociedade.

Este é um livro que tenta trazer à superfície fria da sociedade dilemas sociais.

Na verdade, escrever é uma missão. Uma arma poderosa que pode atingir massas e transformar mentes gélidas e preguiçosas em mentes pensantes e revolucionárias! Não à revolução embasada nas falsas teses, na farsa. Mas, no respeito, na crença e na esperança.

Trazer a realidade cotidiana para as frias páginas do papel, quase que de forma real, é ser capaz de transpor as barreiras do medo e da inércia e fazer o outro vê além do olhar. Vê com a alma! Sentir com o coração pulsante é desvendar o enigma do coração humano que caminha sem se importar, passa sem ver, fala sem sentir e vive confusamente acelerado no pensar e nada consegue.

AMEI O LIVRO! A sensibilidade, a transparência, o poder de capitação dos fatos, da conclusão. Da capacidade das Novas Contistas de levar e elevar os pensamentos de seus leitores! Enfim, amei o poder de descrição de fatos, às vezes, tão utópicos em confronto com a realidade dilacerante.

A cada uma nova escritora, meu sincero respeito. Vocês são as mulheres, que a exemplo de muitas outras, se dispuseram a ir além! As portas para o MUNDO LITERÁRIO foram abertas. Vamos preencher o espaço que pode ser de cada uma de nós.

Editora Zouk está de parabéns! Abriu as portas para, junto com a Casa da Mãe Joanna, encontrar novas contistas brasileiras, e fomos todos surpreendidos com textos memoráveis!

Carinhosamente, Rebecca Penna.

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Novas contistas da literatura brasileira é um livro de contos inéditos organizado por Adélia Mathias, Joanna BurigoKarina XavierLiv Natália e Rosilene Silva da Costa, com abertura de Ana Emília Cardoso e arte de Élin Godois. Organizada e escrita inteiramente por mulheres, a obra é fruto da parceria entre Casa da Mãe Joanna e Editora Zouk. COMPRE O SEU!

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