Reunidas, quebramos o poder dos homens

Trecho da monografia, apresentada em 2014, no bacharelado em Filosofia da UFPel, de Landa Ciccone. A imagem abaixo também vem deste texto. Imagem destacada: detalhe de A Morte de Marat, de Jacques-Louis David (1793) (via Independent)

Os homens sempre temeram a união da mulheres, pois a mulheres quando se juntam, descobrem que podem fazer coisas grandiosas, revoluções.

O decreto, reproduzido na imagem acima, é de 1795. Sabem o que as mulheres tinham acabado de fazer em 1795? Elas tinham feito a Revolução Francesa triunfar. E, de presente, receberam proibições fazem qualquer coisa que os homens achassem que poderia colocar em risco o poder deles.

Os homens sempre nos temeram porque sempre souberam das coisas que somos capazes de fazer quando nos reunimos. Por isso nos mantiveram trancadas em casa, ou tratadas sob a violência da objetificação no espaços públicos.

No dia 5 de outubro completam 229 anos (1789) que nós marchamos sobre Versailles, mais de 5 mil mulheres; matamos o guardas da família real, arrancamos suas cabeças de seus corpos, colocamos elas sobre estacas empunhadas no retorno a Paris, arrastando a família real conosco de volta para o lugar onde o povo estava morrendo de fome…

Sim, foram as mulheres que entregaram a família real, inimigos da Revolução, à prisão que depois os levaria à guilhotina.

Em 1793, fomos nós que matamos Jean-Paul Marat, um dos principais revolucionários articuladores Jacobinos ao lado de Danton e Robespierre. Sim, a girondina Charlotte Corday foi aquela que apunhalou o revolucionário em uma banheira.

Entendem o motivo da Assembleia ter criado o decreto que impedia que as mulheres se reunissem em espaços públicos?
Porque sabiam que bastavam umas poucas de nós reunidas para colocar terror e quebrar o poder dos homens.

Quem não tem direitos, ao tomar consciência disso, não tem nada a perder se não aquilo a que nunca teve direito: a própria vida.

nossos quadros mais revolucionários são as mulheres mais marginalizadas

É por isso que nossos quadros mais revolucionários hoje são as mulheres mais fragilizadas e marginalizadas pelo Estado e pela sociedade. Aquelas que vivem a violência na cor da pele, no estômago vazio, nos filhos abandonados, nos companheiros e filhos assassinados, nos seus corpos explorados sexual e reprodutivamente, na sua força de trabalho desvalorizada…

Quando nos unimos é para nos salvar.

Nos salvando, salvamos a humanidade. Salvamos todos.

O Feminismo sim é a real reivindicação de humanidade para todos. Especialmente protagonizado hoje pelas mulheres vítimas de questões raciais e de classe. Mais que nunca, são elas aquelas capazes de nos falar sobre direitos, sobre humanidade.

O Feminismo sim é a real reivindicação de humanidade para todos.

O decreto de 1795 foi capaz de segurar as mulheres na Revolução Francesa? Óbvio que não. E em lugar nenhum do mundo. Sempre haverão mulheres lutando sozinhas, resistindo ou se unindo, e até mesmo morrendo em luta.

Jules Michelet conta que foi Madame Legros quem derrubou a Bastilha ao iniciar as denúncias sobre a prisão que pouco após a morte dela levaram à queda de 1789.

Milhares de mulheres se levantaram contra o rei e também contra o regime revolucionário, e foram guilhotinadas por reivindicar direitos civis e políticos.

Olympe de Gouges foi apenas uma delas. E ao ter sua sentença decretada, reivindicou o direito à tribuna. Apenas sentenciada a morte no cadafalso, em 1793, teve direitos iguais aos homens.

Não demorou nem 100 anos após o decreto de 1795 para que as mulheres se insurgissem outra vez em busca de justiça social, com a Comuna de Paris, em 1871.

Um dos principais nomes da Comuna, Louise Michel.  Em seu julgamento, fez uma defesa fervorosa da Comuna e bradou: “já que todo coração que bate pela liberdade só tem direito a um pouco de chumbo, eu exijo a minha parte!”

Que venha o chumbo! Das ruas as mulheres não sairão.

ninguém melhor que as mulheres para administrar a coisa pública

Termino essa explanação com recorte longo do livro As Mulheres da Revolução, de Jules Michelet, publicado em 1854, onde se expressa o medo que se tinha das mulheres:

CAPÍTULO XXVII – EXECUÇÕES DE MULHERES: AS MULHERES PODEM SER EXECUTADAS?

“Essas mortes de mulheres eram terríveis. A mais simples política teria suprimido o cadafalso para as mulheres. Isso matava a República. […] Saibamos bem que uma sociedade que não se ocupa de modo algum da educação das mulheres e delas não é mestra é uma sociedade perdida. A medicina preventiva é aqui ainda mais necessária, uma vez que a curativa é realmente impossível. Não há, contra a mulheres, nenhum meio sério de repressão. A simples prisão já é uma coisa difícil: “Quis custodiet ipsos custodes?” (Quem vai vigiar os próprios guardas?). Elas corrompem tudo, quebram tudo; não há cerca forte o bastante. Mas mostrá-la no cadafalso, grande Deus! Um governo que faz essa tolice guilhotina a si próprio. A natureza, que acima de todas as leis, coloca o amor e a perpetuidade da espécie, tem por isso mesmo colocado nas mulheres esse mistério (absurdo no primeiro golpe de vista): elas são muito responsáveis e não são puníveis. Em toda a Revolução eu as vejo violentas, intrigantes, muitas vezes mais culpadas do que os homens. Mas, assim que as ferimos, ferimos a nó mesmos. Quem as pune, se pune. O que quer que tenham feito, sob qualquer aspecto que apareçam, invertem a justiça, destruindo qualquer ideia, a negando e maldizendo. Jovens, não podemos puni-las. Por quê? Porque elas são juventude, amor, felicidade, fecundidade. Velhas, não podemos puni-las. Por quê? Porque ela são velhas, o que quer dizer que foram mães, que permanecem sagradas e que seus cabelos grisalhos se parecem com aqueles de sua mãe. Grávidas!… Ah! É aí que a pobre justiça não ousa dizer mais uma única palavra; cabe a ela se converter, se humilhar, se fazer, caso necessário, injusta. Poderoso é aqui quem afronta a lei; se a lei se obstina, tanto pior; ela destrói a si mesma cruelmente, parece horrível, ímpia, a inimiga de Deus!

As mulheres reclamarão talvez contra tudo isso; talvez elas perguntem se não é fazê-las eternamente menores o recusar-lhes o cadafalso; dirão que querem agir, sofrer as consequências de seus atos. O que fazer a respeito disso, no entanto? […] se as fez a natureza tanto quanto pessoas, filhas do mundo sideral, que, então, por suas desigualdades, são afastadas de várias funções rígidas de sociedades políticas. Elas não deixam de ter uma influência enorme, e no mais das vezes até aqui fatal. Foi o que apareceu em nossas revoluções. São geralmente as mulheres que as fazem abortar; suas intrigas as minaram, e suas mortes (muitas vezes merecidas, sempre inoportunas) poderosamente serviram à contrarrevolução.

Distinguamos uma coisa, no entanto. Se elas são, por seu temperamento, que é a paixão, perigosas na política, são, contudo, mais indicadas do que o homem para a administração. Seus hábitos sedentários e o cuidado que colocam em tudo, eu gosto natural em satisfazer, agradar e contentar fazem delas excelentes funcionárias (públicas).”

Findo aqui, com essa conclusão de Michelet, de que ninguém melhor que as mulheres para administrar a coisa pública. Não por essa suposta natureza, mas porque a gente tem mais senso de justiça que os homens porque sempre estivemos lançadas junto a todos os injustiçados.

Que nos temam!

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