Sem definições para que sempre seja domingo

Chorando aqui deitada na rede.

Ver as nens reunidas na sala discutindo variedades depois de terem tido uma tarde de domingo de teatro. Umes foram pro aniversário da Bianca pra jantarmos juntes e outra parte veio pra festa junina do beco do rato brincar com as crianças na festa junina. Agora todes juntes na sala discutem variedades e o domingo que passaram. Relembram como crianças as brincadeiras que fizeram com as do beco do rato.

Queria que elas e eles tivessem mais dias assim. Sei que amanhã é um novo dia ruim. Sim nós transvestigeneres sabemos com antecedência que amanhã não será melhor que hoje, mas sim, pode ser pior.

E agora Maurício (minha pessoa de estimação =marido), pediu um abraço a Ludmilla e ela abraçou e começou a chorar. Ele disse que tinha todo o tempo do mundo e ela podia chorar.

Lindes. Amor e Afeto.

Levantei da rede exausta, meus olhos ardiam de sono, meu corpo em suas juntas gritava pra que eu parasse. Ri do meu corpo. Esse que nem eu mesma mais defino. Esse corpo que não cabe nos julgamentos dos tribunais brasileiros que não sabem como punir esse corpo que lhes esfrega na cara o quanto suas leis são desiguais, obsoletas e não cabem mais na sociedade atual.

Dei beijes aes menines, me despedi.

Ainda tinha 1 hora de trajeto até em Santíssimo pra minha casa na zona oeste.

Cheguei exausta. Mas ainda tem Juninho e Sansão, meus rotweillers, que desde quinta quando viajei pra Belo Horizonte não passaram sua 1 hora de rua. Sinto que estou febril. A mandíbula dói um pouco do lado direito. As pernas querem se recusar a subir pro primeiro andar da casa.

Subo. Como alguma coisa vegana que minha pessoa de estimação traz; melhor: engulo. Visto a roupa de sair com os rotweillers. Desço,ponho as mordaças neles. De repente parece que eles me passam uma energia forte.

Saio. Caminho 1 hora com eles.

Na volta dou uma rápida limpada no térreo onde eles dormem. Maurício dorme no primeiro andar. Sinto que estou um pouco febril. Ainda encontro forças pra subir até o segundo andar e admirar a vista um pouco. Lembro de como foi difícil, e de como decidi facilitar para outres.

Sempre que tiver tempo, qualquer dia da semana meus meninos e meninas transvestigeneres terão um dia de domingo. Me esforçando pra isso.

Amor, afeto e entrega: assim se rompe o ódio, a revolta e a exclusão que nos deram sempre.

Se depender de mim minhes filhes transvestigeneres terão um lugar para onde voltar de suas andanças e brigas contra o patriarcado e o machismo, base de todes opressões dessa sociedade cishetero.

Se depender de mim, meus filhes transvestigeneres terão noites dançantes entre irmãos e irmãs.
Se depender de mim todes os dia serão domingo pres transvestigeneres.
Se depender de mim transvestigeneres sempre terão um lugar para onde fugir e para onde voltar.

Que meu corpo aguente um pouco mais.

Não é mais por mim. É por nós. É por um futuro mais inclusivo para cisgeneres e transvestigeneres.

Até que sejamos apenas pessoas. Até que matemos o humano que inventaram no nosso cérebro e nos tornemos apenas ser. Sem definições que nos aprisionam. Sem definições que façam ressurgir o ódio. Sem definições que mate o amor entre iguais que sempre serão diferentes um do outro.

O afeto será o remédio e o amor vencerá o ódio.

Por Indianara Alves Siqueira
Imagem destacada: daqui

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