Sem Grilo Zine

Criações feministas que amamos: Sem Grilo Zine. Neste post, as autoras Bruna Paludo e Daniele Stuani contam a história por trás deste projeto delicioso. 

Estávamos eu e algumas amigas celebrando o quanto o feminismo mudou a nossa vida. Pelo menos por mim, posso dizer: o feminismo salvou a minha vida. Eu já era um pouco feminista antes de ter coragem de assumir o nome FEMINISTA. Minhas antepassadas eram feministas, muito embora elas assim não se intitulassem. Minha vó bruxa, minha mãe deusa. Todas as mulheres da minha vida. Mas foi somente após eu conhecer, e ler, e pensar, e refletir muito sobre o feminismo que as coisas realmente começaram a melhorar para mim.

O feminismo inclusivo me tornou uma pessoa melhor. A começar por dentro, o feminismo me permitiu amar a mim mesma. A gozar sem culpa. A exigir mais respeito e reconhecimento. A querer mais. E indo para fora, o feminismo me deu o melhor presente: a sororidade. Eu amo as minhas amigas. Hoje, rivais se tornaram companheiras. E, pelo feminismo, meus preconceitos são desconstruídos um a um, diariamente. Como disse Audre Lorde: não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas. Eu imagino que algo semelhante tenha ocorrido com as minhas amigas. E no meio dessa conversa concluímos: a vida seria muito mais fácil e positiva se nós tivéssemos tido acesso ao feminismo ainda quando crianças.

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Claro que o feminismo não deixa ninguém tão alegre assim. A primeira reação, e ela surge frequentemente, é de raiva, impotência, injustiça. Uma nova janela se abre e o mofo começa a aparecer. É pesado. Mas o feminismo une as mulheres e, juntas, temos força ativa. O mofo está lá e nós estamos apenas começando. Primeiro, iluminamos os cantos mais escuros. Depois vamos, passo a passo, limpando toda a casa. E é um trabalho conjunto porque a casa é grande e o mofo é tóxico. Enfim, talvez se eu tivesse tido acesso a um feminismo inclusivo eu não teria odiado tanto meu corpo quando eu tinha apenas 12 anos. Talvez eu não me sentisse tão culpada. Talvez eu tivesse sido mais companheira das meninas negras. Possivelmente eu teria defendido mais as minhas amigas, em vez de simplesmente ficar feliz em saber que não era o meu vídeo vazado na net sem o meu consentimento.

E pensando nisso, em todos os benefícios que o amor próprio, a sororidade e a representatividade nos trouxeram, surgiu a ideia de fazer um zine feminista para crianças e adolescentes. Zines são democráticos já em seu formato. São baratos e acessíveis. Pelo menos mais baratos e acessíveis do que livros. Normalmente são curtinhos e servem apenas para despertar dúvidas e ideias. Eles podem ser disponibilizados online e fisicamente. Nele cabem ilustrações, fotos, poesias, perguntas, gráficos e contos. E mais ainda: qualquer um pode fazer seu próprio zine. Nosso objetivo inclui incentivar as crianças e os adolescentes a escreverem sobre suas próprias histórias e vivências, compartilharem suas fotografias e ilustrações, exercitarem a arte, e a fazerem perguntas.

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Assim, após alguns meses de muito trabalho surgiu o Sem Grilo Zine. A Daniele fez as ilustrações e eu fiquei responsável pela parte da escrita. Mas na verdade todo o trabalho foi feito em conjunto, inclusive com a ajuda dos amigos.

O Sem Grilo Zine é uma construção coletiva, organizada por pessoas que estão redescobrindo o feminismo todos os dias.

O aprendizado é constante. E como a publicação é destinada a pessoas bem mais jovens do que nós, foi preciso um resgate da infância. Foi necessário que nos lembrássemos de como era ser criança. De como era ser tão vulnerável. De como era ser tão aberta ao mundo. E foi uma experiência incrível. O Zine nos ensinou muito. Foi quase uma terapia. Retornar a um momento difícil da vida e pensar no que eu precisava naquele momento e em como eu lidei com os meus problemas e o que mudou desde então.

Pensando em nossas experiências e também nas experiências de amigos, a temática se concentrou nos seguintes tópicos: autoestima, crítica aos padrões impostos (inclusos aqui também o racismo, o capacitismo, a heteronormatividade e os padrões binários de conduta), desconstrução do universo das princesas da Disney, sororidade, uma pitada de dicas de filmes, livros e sites e também a recorrente lembrança de mulheres incríveis (pois representatividade importa!). Com o desejo de evitar o estilo cartilha, o Zine foi pensado para ser mais poético e não apenas didático. Como estamos falando para crianças e jovens que provavelmente não sabem o que é feminismo, a linguagem usada foi simplificada e cada tema foi posto com cuidado para não assustar e sim para fazer pensar.

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Nosso público-alvo são crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, mas essa faixa etária não é tão rígida assim e acreditamos que o zine pode ser positivo para crianças mais novas e também para adultos. É apenas o começo de um caminho. O nosso projeto envolve distribuir o Sem Grilo gratuitamente em diversas escolas, públicas e particulares, e ter uma conversa prévia e nada formal com as turmas. Para ajudar no financiamento (porque o zine é um formato barato, mas ainda assim trabalhoso e a quantidade de turmas e escolas é grande) estamos vendendo a primeira tiragem por dez reais cada cópia. Pretendemos também organizar um financiamento coletivo que em breve será mais publicizado.

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Enfim, o Zine foi feito com muito carinho e nós estamos abertas para sugestões, críticas e apoio de qualquer um que possa contribuir.

Tanto neste post quanto no Sem Grilo Zine, os textos são da Bruna, e as imagens, da Dani. E as lindas disponibilizaram o Zine, com exclusividade, para download aqui na Casa. Só alegria! Clique aqui

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