Ser solteira é revolucionário

Ser solteiro(a), de certa forma, incomoda a família tradicional. Pois eles querem saber, o tempo todo, sobre os seus namorados ou namoradas – ou seja, a sua vida sexual, estranhamente, é muito importante a quem não tem nada a ver com ela. Mas claro que querem saber dos namorados (as), porém sempre levando em consideração a marca da heteronormatividade.

E, normalmente, a sociedade vai se indignar por você ainda não ter “encontrado ninguém” e até mesmo te classificar de encalhado(a). Curiosamente, o homem possui, aparentemente, certa liberdade maior de iniciar um relacionamento o mais tarde possível, através daquele estereótipo de “nunca se envolver”, por exemplo – e, quando ele o faz, eu já flagrei em vários casos alguém dizer que “Tá criando juízo.” Sempre me intrigou o fato de um relacionamento remeter necessariamente a juízo, mas, à parte, isso raramente é dito a uma mulher. Ela, ao iniciar uma relação, é como se estivesse cumprindo uma espécie de obrigação, em muitos casos. Além de sentimento ser automaticamente associado à mulher e, portanto, inferiorizado.

O termo solteiro(a) é diversas vezes usado de forma pejorativa. Um exemplo de frase contendo esse teor: “Mas ele (ela) vai ficar solteirão(ona)?” Ter um relacionamento, portanto, é uma espécie de dever social, no qual você é visto como perdedor ou perdedora enquanto não obtiver um. Porque, para nossa sociedade tradicionalista, independente do que você esteja fazendo, eles sempre vão presumir que você esteja “à caça” de uma relação. Em minha infância e adolescência, o objetivo principal das meninas (comigo inclusa) era sempre ficar bonita para os meninos, competir entre si para ver quem “pegava” mais e quem iria namorar primeiro. Éramos ausentadas de quaisquer perspectivas maiores. Até hoje eu tenho amigas que hegemonicamente falam sobre homens. Talvez por isso haja a ideia enraizada de que toda mulher está em busca de um homem.

Até hoje eu tenho amigas que hegemonicamente falam sobre homens.

Desse modo, ser solteira, no geral, não é uma escolha sempre respeitada, começando pela mídia que, por exemplo, sempre pressiona e se intriga com o fato de determinada artista estar solteira – mas é uma escolha, muitas vezes, importante a uma mulher que talvez não queira um relacionamento apenas para provar socialmente que ela pode ser amada, por comodismo, por medo de ficar sozinha, por definitivamente não estar a fim de adquirir tal responsabilidade no momento e, ainda, talvez ela esteja se preparando para não entrar em um relacionamento abusivo ou desigual, desenvolvendo, primeiramente, uma relação (forte) com ela mesma e, enfim, para não comprometer a própria felicidade, pois uma relação só vale se vier acrescentar com veracidade algo. A não influência de nenhum homem, em dados momentos, também é muito importante.

Claro que é preciso ainda retratar pessoas que são frustradas pela ausência de um relacionamento, que dependem emocionalmente de alguém, o que não é, claramente, nada saudável. Estes, ansiando por tal idealização da suposta união, podem acabar entrando em alguma relação sem muita solidez e então almejar pela “solteirice” novamente, por aquela ideia de “liberdade” ou, pelo menos, por algo de maior qualidade.

Todavia, querer um relacionamento é totalmente diferente de necessitar do mesmo.

Por Caroline Fortunato
Imagem: Casper David Friedrich Mulher diante da aurora (Wikimedia Commons)
Texto originalmente publicado em Obvious e reproduzido aqui por sugestão da autora <3

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