Sobre divas pop, sexo & feminismo

Sobre divas pop, sexo & feminismo
Por Eduarda Peruzzo
Originalmente publicado no Medium da autora e replicado aqui com sua autorização. 

O título possui 3 coisas que eu, particularmente, gosto muito. Se tu não gosta de todas, tenho certeza que de pelo menos em uma alguma delas a identificação existe. Risos. Antes de começar quero dizer que muito do que eu vou escrever aqui eu aprendi em um curso muito foda da Perestroika com a Joanna Burigo, acho importante falar, só isso.

Mesmo que a revolução sexual tenha acontecido nos anos 60, ainda é um tabu para muitas pessoas falar sobre isso, o que é extremamente chocante. Sexo é algo super natural mas que, por razões históricas e sociais as pessoas tem medo de falar.

Desculpa, me expressei errado. Sexo é super natural, quando a gente fala sobre o prazer masculino. Porque o corpo feminino foi visto, por muito tempo, como uma mera ferramenta reprodutora. Infelizmente devido a esses costumes super antigos as minas tem que lutar, a muito tempo, pra poder falar sobre isso. Por que se a gente não falar, cenas como essa serão mais comuns:

 

 

 

 

 

 

 


“Minha namorada se masturba depois de fazermos sexo. Por que?”

 

Infelizmente essa cultura puritana atinge só nós mulheres, mas felizmente, a gente tem algumas pessoas com um pouquinho de visibilidade falando sobre isso a bastante tempo e dando soco no estômago de muito conservador por ai.

E ai que entra as divas pop e o feminismo. Não necessariamente essas mulheres que eu vou falar aqui de auto declaram feministas, ok? E também não quer dizer que elas sejam deusas que devem ser colocadas em pedestais, porque assim como qualquer outra pessoa, elas erram. Ponto. O que eu quero falar nesse texto é o quão importante essas mulheres são pra desconstruir essa gama de preconceitos e papéis sociais que foram impostos pra nós há muito tempo.

Vou começar falando sobre a Madonna.

Em Human Nature, música que fez parte do álbum Bedtime Stories nos anos 90, a cantora basicamente fala sobre toda essa questão do sexo girar sempre em torno do homem, mas ela utiliza frases com um toque de sarcasmo como: Ops, I didn’t know I couldn’t talk about sex e ainda revira os olhos quando fala “what was I thinking” do tipo: o que deu na minha cabeça pra achar que ele entenderia?

Human Nature, 1994

O que eu falo de ser tão importante ter essas conversas através de pessoas super mainstream é por que elas são globais. Nem todo mundo pode sentar e ler uma produção acadêmica da Kate Millet, por exemplo, o que essas divas fazem é democratizar uma conversa que é pra todas, sabe?

A Madonna fala no clipe sobre a mesma coisa que a Kate Millet fala sobre “sexo ser um aspecto político frequentemente negligenciado” e sobre o quão importante é ver que o sexo também foi construído a partir de uma narrativa feita por homens e que tem raízes extremamente patriarcais. Mas essa linguagem não é pra todo mundo. Por isso a Madonna vem e fala que sexo é da natureza humana.

Além de ser o canal de difusão dessas conversas, algo muito interessante é o poder dessas mulheres de dar novos significados a signos que remetiam opressões femininas. Com essa ideia, eu trago outra diva: Beyoncé.

Em Lemonade da cantora falou muito sobre racismo e sobre traição. Não vou entrar no primeiro assunto por não ter propriedade pra falar sobre, então se quiser bater um papo sobre isso: eu adoraria. As músicas seguem uma narrativa bem legal e em muitas delas ela fala sobre traição, como Hold Up e Sorry. (Se quiser assistir os clipes só clicar nos nomezinhos)

Pra quem não sabe, a Beyoncé é casada com o rapper Jay-Z e eles tem 3 filhos. Traição sempre foi demonizada quando vinha de uma mulher, mas compreensível quando vinha um de homem e com isso aquelas frases prontas de microondas do tipo “é instinto masculino” ou “talvez ele não estivesse se satisfazendo com o que tinha em casa”. Mas ela foi lá, fez um album sobre isso e disse: aconteceu comigo também e não é nossa culpa. Ela falou com milhões de pessoas que podem ter passado pela mesma coisa em 4 minutos de vídeo.

Vale lembrar também que a Beyoncé foi a diva que deu o start se assumindo feminista com o clipe de Flawless que usa o texto de “Sejamos todos feministas” da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichi como narração.

Ainda sobre dar novos significados, a Madonna fez a mesma coisa quando cantou em cima de um palco “Like a Virgin” fazendo uma performance que insinuava uma masturbação usando um corset que, historicamente, é um simbolo de repressão ao corpo feminino.

Like A Virgin, 1991

Pra finalizar vou falar de umas das minhas cantoras preferidas: Rihanna.

Não é novidade pra ninguém que em 2009 ela esteve em um relacionamento abusivo com o cantor Chris Brown e vazaram as fotos das agressões físicas que ele tinha cometido contra ela. Violência doméstica não é brincadeira e todo mundo sabe disso, certo?

É, mais ou menos.

O falecido Snapchat fez um joguinho completamente no sense dentro da plataforma deles chamado “Who you rather?” que tinha a opção “Slap Rihanna” ou “Punch Chris Brown”. É aquelas coisas que a gente nem acredita que realmente foram feitas por serem, simplesmente, absurdas.

Rihanna viu aquilo e fez a seguinte declaração no Insta:

 

Ela falou sobre o quão desrespeitoso foi fazer uma piada com violência doméstica tanto com ela, mas principalmente com todas as mulheres, crianças e homens que já sofreram com isso. Com a declaração da Rihanna, muitos usuários deixaram a plataforma e a empresa perdeu cerca de 2 bilhões de reais e as ações seguem caindo.

Além desse evento, o último album intitulado Anti fala muito sobre empoderamento feminino. Uma das minhas músicas preferidas é “Needed Me” onde ela, basicamente, quebra os estereótipos de princesas precisando de príncipes.

Needed Me, 2016

Didn’t they tell you that I was a savage?
Fuck ya white horse and ya carriage.

Todo o album Anti fala sobre empoderamento e com a narrativa das músicas fica claro: é o processo de empoderamento da própria cantora. Em Needed Me, ela tem uma arma durante todo o clipe, remetendo que ela é a pessoa responsável pela própria segurança. Quando ela chega com a arma e o homem joga dinheiro na cara dela, é pra ilustrar a lógica patriarcal de que quanto mais poder o homem tem, mais ele se sente no direito de oprimir.E esse poder pode ser de diversas formas.

Pra fazer um encerramento: todas essas cantoras são responsáveis pelas próprias carreiras e tem um peso muito grande na cultura POP e na cultura mainstream num geral. A gente pode até não gostar da música, da cantora ou de outras coisas que girem em torno disso, mas é impossível não reconhecer o poder de voz que essas mulheres tem e o que elas representam dentro de uma indústria super machista.

É isso ai 🙂

 

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