Sobre homofobia como repressão da homossexualidade

Sempre que um ataque homofóbico “notável” acontece, especulações acerca da sexualidade do agressor surgem. Se tecem hipóteses de que a homofobia e estes ataques homofóbicos foram motivados pelo fato do agressor supostamente estar reprimindo sua sexualidade. Há um tempo eu já tinha apontado como é uma explicação rasteira ou uma vulgata de uma interpretação psicanalista reducionista já que implicitamente culpabiliza os próprios oprimidos por ataques como este.

Mas gostaria de pensar essa questão com um pouco mais de refinamento. O diagnóstico de que a homofobia é causada por repressão da própria sexualidade é, em certos termos, verdadeira. São as conclusões que orientam as proposições e soluções políticas que a gente toma a partir desse diagnóstico que não são tão evidentes. Acontece que dependendo de como entendemos questões como a repressão, sexualidade e normas, tecemos determinadas conclusões acerca desse tipo de violência. Com isso quero dizer que a partir deste diagnóstico se pode tecer conclusões díspares (algumas equivocadas, outras não) a partir de qual perspectiva teórica se tem acerca destas questões.

Dependendo de como entendemos questões como a repressão, sexualidade e normas, tecemos determinadas conclusões acerca desse tipo de violência.

Primeiro, se pode concluir que a “culpa” da homofobia é dos próprios homossexuais, por exemplo, de forma a colocar a posição da heterossexualidade como algo impensado, naturalizado. Como se a própria heterossexualidade compulsória não fosse constitutiva do fato de ter havido repressão sexual de algum sujeito. Esta sim seria uma conclusão inadequada que se faz a partir de um diagnóstico parcialmente correto. Tal posição é típica da pessoa heterossexual que quer se eximir de um debate aprofundando sobre a questão, preferindo respostas prontas, tirando a sua própria constituição subjetiva da reta.

Por isso nestas discussões é importante acionar o debate teórico que fazemos acerca do que significa uma identidade (seja sexual ou de outra natureza) e como um sujeito se subjetiva tendo em vista uma relação com as normas, para poder articular de forma correta a questão das formas de subjetivação e a totalidade de um funcionamento social. A teoria acerca das identidades afirma que uma identidade não existe por si mesma, já que a alteridade é constitutiva de sua própria unidade. É preciso entender, portanto, que a homossexualidade reprimida não existe em si mesma, mas tão somente referida a um sistema em que a heterossexualidade funciona como a norma. Por isso concluir que a homofobia seria uma problema dos homossexuais é uma conclusão equivocada.

Nestas discussões é importante acionar o debate teórico que fazemos acerca do que significa uma identidade.

É a sociedade como um todo que está implicada nesses ataques, que são sintomas ou efeitos de como a norma heterossexual funciona. O fato de alguém ter tido que reprimir sua homossexualidade não se circunscreve a um âmbito individual ou apenas em relação aos grupos oprimidos, é um fato, ao contrário, que se deu em virtude da totalidade da sociedade, em virtude da sociedade em si funcionar em torno da heterossexualidade compulsória.

A homossexualidade reprimida não existe em si mesma, mas tão somente referida a um sistema em que a heterossexualidade funciona como norma.

Para concluir, acredito que vale a pena apontar como esse diagnóstico pode ser mobilizado pelos nossos discursos de resistência. Quero dizer: se entendemos que o diagnóstico da repressão sexual como causadora de ataques como vimos em Orlando, a conclusão prática que temos que tirar para que situações como esta não aconteçam mais, deve ser justamente de permitir com que os sujeitos não sejam constrangidos socialmente a reprimirem a homossexualidade (no caso): isto porque a repressão se da em nível estrutural no funcionamento da totalidade da sociedade, e não de forma fragmentária (seja no âmbito do indivíduo ou dos grupos oprimidos).”

Por Beatriz Pagliarini Bagagli
Originalmente publicado em transfeminismo.com

Comments

Comentários