Sobre legitimar o ser, se fazer pertencente

Estar no clandestino, restaurante de Bel Coelho, vivenciando o Menu dos Orixás, cardápio criado por ela há 7 anos, é se permitir viver uma viagem no inconsciente e profundidade do presente. Visitei minha memória afetiva a cada degustação e fui convidada a construir novos referenciais de sabor.

Escrevo este texto entre os intervalos da entrega dos pratos que reverberam nas minhas papilas gustativas, cada prato uma explosão de sabores, cores, cheiros, cuidados e afetos. Eu estou sentada no meio do salão, e que presente é estar sozinha. No início me senti um pouco desconfortável e passei pela paisagem sonora das mesas vizinhas. Mas quando iniciou o menu e a explicação cuidada e atenta de cada prato e bebidas da harmonização, me permiti pertencer a este território novo a mim e aos seus aprendizados.

Cada detalhe do menu foi elaborado a partir de uma profunda pesquisa de Bel pelo universo do candomblé. Cada prato homenageia um Orixá! E todos os pratos parecem pinturas, obras de arte, cuidadosamente elaborados pelos cozinheiros.

Não sei se você sabe mas os orixás têm seus ingredientes favoritos e também os alimentos que os filhos de santo não podem comer, porque o Orixá não gosta ou teve uma história negativa, se comer dá quizila (ewó), então melhor evitar. Mas é claro que se tiver alguma restrição o prato será adaptado.

A entrega do menu funciona como um espetáculo de balé afro daqueles bem baianos. Cada ato é orquestrado como um atabaque tocado por um alabê e entregue na sua frente como um presente para saborear.

Volto a falar sobre o pertencimento e, sabiamente, esta religião, criada no encontro das culturas dos povos vindos de África, seguem reverberando por centenas de anos, resistindo e pulsando até nossos tempos. Eu agradeço!

Por Priscila Fonseca
Imagens: Carol Gherardi

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