Sobre problemas de gênero

Tenho visto inúmeras postagens nas redes sociais, algumas extremamente raivosas, outras nem tanto, mas mesmo assim desnorteadas, repletas de distorções conceituais, confundindo identidades de gênero com identidades sexuais, além de um evidente pânico moral em relação a esses termos.

Afirmações do tipo “homem nasce homem, mulher nasce mulher” são comuns na rede e demonstram um desconhecimento em relação ao tema, a saber:

  1. Tecnicamente não nascemos homens ou mulheres (não ignorem as infâncias, please!), mas nascemos machos, fêmeas ou intersex (sujeitos que nascem com genitália ambígua). Sim, isso existe! Leiam as pesquisas produzidas pela maravilhosa e competente pesquisadora Paula Sandrine Machado;
  2. A partir disso é que os sujeitos se tornam meninos e meninas e anos depois homens e mulheres. Somos construídos e subjetivados em nossos processos identitários a partir de inúmeras EXPECTATIVAS que vão sendo tramadas, constituídas e designadas em cada sociedade, cultura e tempo histórico, a partir de discursos, instituições e práticas. Por exemplo, tais scripts em torno das meninas e meninos, mulheres e homens em pleno século XXI podem variar, dependendo do país onde se vive (e mesmo dentro de um mesmo país, de um mesmo estado, tais expectativas podem variar, a partir de inúmeros atravessamentos – classe social, religião, escolaridade, geração, etc.) . Em muitas culturas as mulheres e meninas não têm os mesmos direitos que os homens ou meninos (vejam o exemplo de Malala, que pleiteava o direito aos estudos para todas as meninas). Cabe ainda lembrar que até o séc. VXII, os órgãos sexuais femininos eram entendidos pela medicina da época como versão mal acabada dos masculinos (Teoria unissexual). Os termos vagina, útero, vulva, lábios, clitóris foram criados somente depois do séc. XVII;
  3. É preciso compreender que a categoria gênero não é uma ideologia, mas um instrumental de análise. Para entender de onde surgiu esse equívoco conceitual nomeado por “ideologia de gênero”, ler JUNQUEIRA, Rogério (2017, p. 47-48). Segundo o pesquisador, trata-se de uma “invenção católica que emergiu sob os desígnios do Pontifício Conselho para a Família e de conferências episcopais, entre meados dos anos de 1990 e início dos 2000”. Assustados com o crescimento das reivindicações pela igualdade de direitos das mulheres, o termo foi criado para “depreciar e desqualificar os estudos científicos e acadêmicos sobre gênero, funcionando como um slogan catalisador de manifestações contrárias a políticas sociais, reformas jurídicas e ações pedagógicas de promoção dos direitos sexuais e punição de suas violações, de enfrentamento de preconceitos, prevenção de violências e combate a discriminações”;
  4. Para entender o conceito, ler toda a obra de Guacira Louro. Mas se você tiver preguiça de ler tudo, pode ler “Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista”. (Vozes: 1997). Já é um bom começo. Também recomendo dois livros de STEARNS, Peter. “História das Relações de Gênero” (Ed. Contexto, 2007) e o “História da Sexualidade”, pela mesma editora (2010);
  5. Para aqueles/as que só acreditam em referências no campo da medicina/biologia, há um interessante livro escrito por ELIOT, Lise. Cérebro azul ou rosa: o impacto das diferenças de gênero na educação. Porto Alegre: Penso, 2013. Também recomendo fortemente ler LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos à Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001;
  6. Em relação ao tema da violência/abuso sexual contra crianças, sugiro a leitura de AZAMBUJA, et al. Violência sexual contra crianças e adolescentes. Artmed, 2011. E também SANDERSON, Christiane. Abuso sexual em crianças: fortalecendo pais e professores para proteger crianças contra abusos sexuais e pedofilia. Mbooks, 2005.

Obviamente existem muitos outros estudos, pesquisas e obras, que não daria para listar aqui.

Joanna Burigo fala sobre gênero, feminismo, equidade e privilégio no TEDxLaçador

O estudo atento dessas obras poderão auxiliar no entendimento dos temas aqui elencados, mostrando porque os mesmos estão interligados, embora não sejam a mesma coisa. Uma ótima leitura a tod@s!

Por Jane Felipe
Imagem destacada: still do filme Pink Flamingos (John Waters, estrelando Divine)

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