Todo dia um “Cara Gente Branca” diferente

Eu sou sócia de um clube cuja maioria dos sócios é bem elitista e racista. Aquele tipo de branco paulista cujo tataravô veio da Itália e por conta disso se acha italiano, ou ainda aqueles brancos que ficam bronzeados e falam que têm sangue de índio, porque sei lá qual ancestral era bandeirante, como se fosse bonito descender desse tipo de gente.

Quando eu estava usando tranças, era uma constante me pararem na academia ou no vestiário para me perguntarem se eu lavava o cabelo. Depois que eu as tirei, comentei que meu cabelo é seco, e que isso é uma característica de cabelos afro. Mas me cortaram, pois “imagina que seu cabelo é afro. Seu cabelo é bom”.

Foi parecido quando um cara me disse que eu tinha um “pé na cozinha” e eu o encarei dizendo que não tinha entendido, porque geralmente só piso na cozinha pra pegar água. Aí ele teve a pachorra de dizer com todas as letras que quis dizer que eu era “meio mulata”Quando eu disse que não sou mulata, e sim preta, ele tentou me convencer que não. Porque quem sempre definiu pessoas como eu foram pessoas como ele, certo?

Praticamente todo dia alguém atravessa na minha frente pra fazer pedido no bar, pra pesar o prato no quilo, pra tentar pegar o aparelho de ginástica que estou usando. Uma vez uma mulher tentou me explicar que como eu deveria pesar o prato, e eu tenho vontade de gritar que eu sou doutora, e a última coisa que preciso é que me expliquem como pesar o prato de comida.

Eu fiz mestrado e doutorado na PUC-SP, e como meus colegas tinham certeza absoluta que racismo no Brasil era questão de classe, ficava imaginando o que essas pessoas sabiam sobre ser uma pessoa preta ou parda num ambiente de classe média. Se sabiam que no Sudeste, quer dizer, um ambiente predominantemente branco, é comum receber comentários, sobre seu trabalho, do tipo “nossa, não é que seu artigo ficou bom?” ou “alguma coisa você deve ter, o fulano não orienta qualquer pessoa”.

Some-se a isso os comentários preconceituosos adicionais sobre ser da Amazônia que ouvi na PUC, e num curso que fiz no Estadão, pois “quem vem de tão longe vem com mais garra” e “nossa, deve ser muito diferente pra você”. Tinha também aquela colega de trabalho metida a mãe de santo que teve a pachorra de dizer que “sou mais preta que você”, e que depois que eu dei risada na cara dela parou de falar comigo, sendo que o emprego que ela tem foi porque eu indiquei.

Assim como os personagens da série, minha experiência de vida não corresponde à experiência da maioria da população negra, e é bom que isso seja frisado. Mas tem uma coisa muito importante ali que está gritando. Os acessos e a conformidade aos padrões de um mundo que não foi feito pra você jamais te tornaram invisível para eles, por menos escuro e mais parecido com eles que você seja.

A gente tem que parar urgentemente com esse discursinho babaca de “somos todos miscigenados”, porque num país racista a mestiçagem só é boa quando ela não aparece.

Por Fhoutine Marie, Jornalista e Doutora em Ciências Sociais
Imagem destacada: divulgação

Comments

Comentários