Uma revisão feminista da própria história

Quando a gente faz uma revisão feminista da própria história, é inevitável estabelecer alguns rompimentos. E, nesse movimento, aquelas pessoas próximas abusivas e machistas são afastadas por uma questão de saúde mental e coerência.

Não é que o incômodo e a percepção sobre as violências por quais passamos tenha se dado apenas agora. Eles sempre existiram. A diferença hoje é a maturidade e coragem pra encampar emocionalmente as rupturas necessárias. E também o cansaço de jogar tudo embaixo do tapete porque “dá menos trabalho”.

Infelizmente, a socialização feminina é calcada para silenciar as agressões as quais sofremos. Pra guardar só pra nós aquele assédio sofrido na infância ou na vida adulta. Pra perdoar o pobre “amigo” que criou uma friendzone e nunca te respeitou no que realmente foi oferecido a ele: a amizade.

A história das mulheres é a história dos homens que violaram limites.

E porque também a gente sabe que denunciar não é um processo simples. Há tanta revitimização, tanto pouco caso do Estado, e tantos dedos apontados que muitas de nós desistimos. A história de todas as mulheres é a história dos homens que violaram os seus limites. O doloroso silêncio aprendido pela nossa socialização só contribuiu para reforçar o anonimato covarde e canalha pelo qual se esconde cada assediador/abusador.

Mas chegamos a um ponto que não topamos mais conviver com injustiças tão gritantes. Romper o silêncio é algo que devemos a nós mesmas. Por uma vida diferente e por um resto de história vindoura que não seja pautado pelo emudecimento de traumas. Porque também nos damos conta que não estamos sozinhas nesse processo.

Há uma rede de solidariedade, ainda que pequena, disposta a nos acolher. Tem muitas mulheres que estão nessa marcha, deixando para trás embustes e amizades tóxicas. Dispostas a pôr o dedo na ferida. A engrossar o coro das descontentes. A acuar esses lobos em peles de cordeiro. Só sei dizer que somos muitas em busca de cura, conscientização e afetos mais saudáveis. E de JUSTIÇA. Nada mais será tolerado.

Romper o silêncio é algo que devemos a nós mesmas.

Sim, temam, porque nossas estratégias são eficazes e sofisticadas. Não existem razões pra se ter perto gente que NÃO vai fazer autocrítica, rever privilégios ou ceder poder para equilibrar o jogo. É necessário manter bem longe pessoas que não possuem nenhum dilema moral em se aliarem com que há de pior na espécie humana. E não, não dá pra viver conciliando sempre. Essa eterna conciliação e falsa diplomacia só resulta em paralisia e adoecimento.

Com muito orgulho, tem lugares que eu não piso, pessoas que eu não falo e práticas que me distancio cada vez mais. Romper para mudar é também muito produtivo, pois nos libera para conquistar outras narrativas em que não caibam mais o apagamento de nós mesmas. Aliás, não cabe mais condescendência nenhuma com quem contribuiu para sofrimentos. Há uma história nova pra ser escrita e não tenho dúvidas que ela será escrita no feminino.

Por Jeane Melo
Imagem destacada: Rethinking Life

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