Vedovi (Viúvos)

Exposição no MACC, em Campinas, aborda a viuvez a partir do documentário “Vedovi”, de Giovana Mastromauro e Laura Cionci. Com relatos, vídeos e imagens de homens que perderam as suas companheiras, o trabalho tem como foco a desconstrução de estereótipos relacionados ao universo masculino através de depoimentos sobre a perda. 

O Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) recebe, entre os dias 7 de fevereiro e 7 de março, a exposição “Viúvos – Vi – Vedo” um projeto da diretora e artista visual Giovana Mastromauro e da artista italiana Laura Cionci. Com um diálogo direto das artes visuais com o cinema, a videoinstalação propõe um espaço de reflexão, de pausa e de atenção através de imagens e testemunhos de homens viúvos captados no Brasil e na Itália. A entrada é gratuita.

A exposição é resultado de um longo processo de desenvolvimento e colaboração entre a artista brasileira e a italiana, iniciado na Itália, em 2014, e que continuou à distância. A ideia é discutir o imaginário coletivo e os clichês relacionados à viuvez, com uma proposta de rompimento de estereótipos a partir de depoimentos sob o ponto de vista masculino.

Embora iniciado em 2014, o projeto começou a tomar forma um ano antes, a partir de uma experiência pessoal da diretora. Em 2013, quando perdeu a avó materna, Giovana recebeu uma ligação da avó paterna. Na conversa, ela falou da ausência do avô que não chegou a conhecer – e cuja história não era um assunto na família. Foi como quebrar um tabu.

“No telefonema, minha avó contou coisas sobre ele que eu nem imaginava. Fazia 35 anos que ele tinha morrido.” Giovana tinha acabado de encerrar em Campinas uma exposição que abordava, por meio de uma instalação, doenças psicossomáticas desenvolvidas após o término de um relacionamento amoroso.

Decidiu, então, gravar o depoimento da avó. Logo em seguida, foi para a Itália e conheceu a artista Laura Cionci. Elas fizeram várias entrevistas desde então, inclusive com mulheres. Na edição, decidiram fechar o foco sobre as falas masculinas.

“Vivendo em uma sociedade machista, o homem não tem o direito de se emocionar, de se entregar, de chorar. E, para revelar não só a verdade, mas a realidade do homem que está pleno de sentimentos, emoções e conflitos com ele mesmo, ‘Viúvos – Vi Vedo’ se propõe como exemplo de descoberta de sentimentos e histórias que a nossa sociedade esconde individualmente, por ignorância ou interesse”, diz Mastromauro.

Os protagonistas, conta ela, são homens que amaram e amam suas companheiras e estão em uma condição de dificuldade emocional e psíquica, principalmente devido à sua invisibilidade social. As gravações foram realizadas na região de Nápoles e Roma na Itália, e em Valinhos, no Brasil.

Ao longo do processo, as duas artistas tentaram, através das histórias pessoais, descobrir o lado emocional do homem escondido de sua vida cotidiana. Para isso, optaram por uma espécie de trabalho artesanal, com o auxílio somente de uma câmera e um microfone para alcançar a intimidade dos entrevistados.

A obra é composta de quatro vídeos e dez fotografias. Em uma das salas, o público confere um mini-documentário de 25 minutos que projeta depoimentos de homens que perderam as companheiras, paisagens italianas e cenas internas da casa onde os casais viveram. Nesta sala será reconstituída uma sala de estar, com bancos, cadeiras e mesa de centro. Lá estarão expostas também as 10 fotografias e os textos curatoriais do projeto. Em outra sala serão exibidos os três vídeos que se comunicam entre si em três paredes, com as falas e silêncios de viúvos brasileiros e a projeção de paisagens brasileiras e cenas interiores de suas casas.

Os viúvos envolvidos no projeto foram levados a refletir sobre sua condição, a lembrar do passado e a analisar sua situação atual, o que resulta em um contraste entre a dor e a nostalgia, ironia e ternura.

“É como se o homem se tornasse tão frágil a ponto de suavizar não apenas com a expressão da dor, mas também com a própria revelação de sua vida na história”, analisa Mastromauro, que é doutora em História pela Unicamp, com uma linha de pesquisa sobre “Política, Memória e Cidade” através da escrita e das artes visuais.

O processo de trabalho, que durou cinco anos, levou as artistas a refletirem sobre o contexto desses estados de estar na sociedade atual, constantemente em mudança. Trata-se de uma visão brasileira e italiana não só política, mas íntima e cruzada, que narra como os eventos “exteriores”, nacionais ou mundiais, ajudaram no desmoronamento da fragilidade humana e da sensibilidade feminina.

 

FICHA TÉCNICA
Viú.vos – Vi. Vedo

Projeto de Giovana Mastromauro e Laura Cionci
Giovana Mastromauro – Artista visual e Diretora Geral
Laura Cionci – Artista convidada
Mariana Atauri Maurer – Produtora Executiva
Marcelo Beso, Leonardo Caffo, Christian Caliandro e Azzurra Muzzonigro – Texto curatorial
Elías Abraham – Cenografia
Guilherme Spagiari – Técnico de projeção e som
Ricardo Zollner Junior – Criação de trilha sonora
Sofia Karakachoff – Correção de cor
Edição de imagem – Giovana Matromauro e Laura Cionci
Laís Blanco – Identidade Visual e Projeto Gráfico

Depoimentos
Brasil

Antonio (in memorian)
José
Junior
Itália
Claudio
Gennaro
Marino
Michele

 

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