Violência policial: um relato anônimo, mas não desconhecido

Estavam tentando violar seu domicílio, ela ligou para o 190. Nas duas horas de espera pela chegada da polícia, as tentativas de invasão de seu domicílio não cessaram. Quando a polícia chegou, ela se sentiu segura em sair pra saber se as pessoas que estavam lá fora tentando entrar tinham sido pegas em flagrante pela polícia. Mas a polícia parecia conhecer aquelas pessoas, e disse que não viu nada ali, mas que todos deveriam ir para a delegacia registrar a ocorrência.

Ela disse ao policial que não precisava ir na viatura, mesmo tendo sido ela a chamar a polícia. Recebeu ordens, gritos, de que era obrigada, sim. Foi puxada pelo braço pela polícia truculenta, a mesma que foi chamada para lhe garantir segurança. A mesma que agora a estava violando numa cena que não fazia nenhum sentido.

Na delegacia, mal conseguia falar com os policiais da civil, porque os policiais militares não deixavam.

Percebeu que havia entre os policiais militares e as pessoas que estavam tentando invadir seu domicílio uma certa cumplicidade, uma certa, digamos, amizade. Foi nesse momento em que ela entendeu o que estava acontecendo.
Por serem amigos dos que estavam tentando invadir o domicílio dela, aqueles policiais estavam querendo mostrar que foi um erro ela ter tentado impedir aquelas pessoas de terem consumado o crime de violação de domicílio.

“Ela alega que eu a agredi. Se ela quiser fazer o registro dessa agressão, não deixe de orientar sobre as consequências, ok caro amigo policial civil”, disse o PM.

Ela ficou ali, no canto, cercada por homens armados até os dentes e pelos que estavam tentando violar seu domicílio, visivelmente protegidos pelas autoridades policiais.

Nessa oportunidade, entrou na delegacia uma mulher negra, com sua filha e filho. Estava querendo saber onde podia pegar os pertences do filho, pelo que recebeu como resposta-grito do policial de plantão: “Minha senhora, a senhora está querendo insinuar alguma coisa? Tipo que ficamos com os pertences do seu filho, aquele bandido que foi preso por furto?”

Intimidada, aquela mãe disse “Não, senhor. Eu só vim perguntar se tinha ficado aqui.” E saiu de cabeça baixa, como se não fosse um ser humano, uma cidadã com o direito mínimo de procurar saber dos pertences do filho menor.

Ela assistiu aquilo e pensou: o que fazer diante de fatos como esse? Como agir diante de fatos como esses quando, há pouco tempo, membros de uma instituição falida, ensinados a serem desumanos, executaram, na frente de moradores e mediante filmagem, duas pessoas já rendidas, e por essas execuções foram presas e logo após soltas por causa de uma decisão judicial que alegou  ter escutado a voz das ruas. Tudo isso ao mesmo tempo em que se respondeu: “como você tem coragem de se perguntar como agir?”

Ora! Tentar preservar ao menos a própria vida, minha cara – foi o que seu raciocínio lhe concedeu como resposta. Ela pensou “o Brasil não é um estado democrático de direito?”, e a resposta imediata em sua mente consciente foi “mas é uma ditadura de fato”.

Ela saiu de lá gélida, abatida, vulnerável e ciente que da próxima vez em que precisar chamar a polícia, não deverá fazê-lo.

Também não se olvidou de matutar se haveria exceções nessas instituições ou se todos que aceitam ingressar nelas já estão cientes dos procedimentos desumanos que deverão cometer, e aceitam executa-los de bom grado, tornando-se bandidos pagos pelo dinheiro público, mas achando que bandidos de alta periculosidade sempre são só os outros…

Por fim, saiu falando sozinha pelas ruas, numa voz baixa que era um grito contido e dizia: “Um ambiente que tem como função institucional qualquer coisa menos fazer com que cidadãos se sintam humanizados chama-se delegacia de polícia. Aquelas roupas, que deveriam servir para qualquer coisa menos vestir quem deveria oferecer segurança, e fazem exatamente o contrário. O fardo e a farda da polícia militar.”

Relato anônimo
Imagem destacada: abordagempolicial.com

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