Você está em dívida, patinha.

Vocês conhecem o Teste do Pato?

É uma expressão de lógica da língua inglesa que traduzo aqui livremente assim: “Se anda como um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente É UM PATO”.

Eu sempre lembro desse teste quando penso no feminismo branco, especialmente o brasileiro, que é mais sonso.

Uma frase que sempre ouço saindo da boca de feministas brancas aqui é: “Não ataque outras mulheres! Nosso inimigo é outro!”. Mas… será que é mesmo? Se tem feminista que fala como o inimigo, age como o inimigo e anda como o inimigo, então provavelmente… Vocês entenderam.

Além disso, o inimigo da mulher negra, o racismo, está firme, forte, saudável e coradinho vivendo dentro de mulheres brancas, por mais feministas que sejam. O racismo não é um inimigo dos brancos – na verdade, sempre foi aqueeeele amigão que conseguiu vários favores irados pra essa galera, como terras, privilégios, fortunas e heranças, às custas de povos não-brancos.

“Nossa, Luíse, mas do que você está falando? Me dê exemplos!”

Eu tô falando dos relatos de muitas mulheres que conheci nos últimos meses, principalmente, que relataram decepções e comportamentos inaceitáveis vindos de mulheres que, em teoria, são feministas. Tô falando da minha própria história também.

Tô falando do espírito de salvadoras brancas pintado de interseccionalidade.

Você não está sendo uma aliada interseccional se trata mulheres negras como projetos de caridade. Se escuta, respeita e confia mais na capacidade das mulheres brancas do que na das pretas. Se tokeniza a mulher negra, se você só lembra dela quando não quer que fique feio para você. Se quando uma mulher branca reclama é um ato de coragem, mas quando ela é negra, é “muito esquentada“. Se você não tem amizade com mulheres negras – e tô falando de amizade mesmo, de criar laços fortes, não conta se as negras que você conhece são só colegas, conhecidas ou, pior ainda, prestadoras de serviço. Se você só admira as pretas que estão obviamente no topo, aquelas que já receberam a chancela de instituições poderosas. Se você acha que, mesmo branca, você está isenta de agir de forma racista porque você “entende”, porque você leu Angela Davis. Na verdade, você não entendeu é nada se acha que deixar de ser racista é como desligar um botão da sua mente, que basta “estar atenta”.

Ser aliada dá trabalho. Como você espera que os homens se comovam com as pautas das mulheres se você mesma se importa com mulheres negras apenas superficialmente? Se não consegue entender que o seu status tem um peso – aliás, estou aqui me direcionando principalmente a brancas não periféricas.

Sabe todas aquelas noções de que mulheres também são machistas por serem criadas em uma sociedade que também o é, mas que isso não as beneficia em nada? Aplique isso para a cor da sua pele clara e lembre que o racismo te beneficia, sim, e muito. Por isso o seu esforço deve ser bem maior, porque você o traz para dento de espaços feministas onde mulheres negras deviam se sentir acolhidas, mas acabaram se deparando com as mesmas barreiras que encontram em quase exatamente todos os outros lugares das suas vidas.

Você, como feminista branca, precisa aceitar-se hospedeira de um parasita mortal para mulheres negras, com o qual deverá travar uma eterna batalha para que ele jamais se manifeste – e por mais inglória que seja esta luta, ainda assim você não merece palmas ou biscoitos por ela. Não é mais que a sua obrigação. Você está em dívida, patinha.

Por Luíse Bello
Imagem destacada: detalhe de “Duck Chase” de Anna Rose Bain

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