Voto não é mitologia, voto é vida real

Atena, deusa da sabedoria, e Poseidon, deus dos mares e dos terremotos, entraram em disputa para saber qual dos dois seria escolhido para ser a deidade da cidade de Atenas. Mulheres e homens atenienses foram chamados a votar, as mulheres votaram em Atena, os homens votaram em Poseidon e Atena foi a divindade escolhida por um voto de diferença. Poseidon ficou irritadíssimo, questionou o pleito, deu faniquito e castigou a cidade com enormes ondas. Para acalmar a ira de Poseidon, foram impostos às mulheres três castigos: perderam o direito ao voto, suas filhas e filhos não poderiam mais levar seus nomes e elas não seriam mais chamadas de atenienses.

Milênios depois e numa dimensão distinta da mitologia, já na vida real, durante a Revolução Francesa, no século XVIII, Olympe de Gouges teve a audácia de querer que as mulheres tivessem direito à propriedade, à educação, ao trabalho e à participação política; e, ainda por cima, teve a pachorra de escrever a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, escancarando a contradição da Declaração dos Direitos (só) do Homem e do Cidadão produzida pela Revolução dos homens que defendiam Liberdade, Igualdade e Fraternidade (pero no mucho). Teve sua cabeça guilhotinada, em 1792.

Um pouco mais pra cá, já no século XX, em 1913, Emily Davison, uma sufragista, jogou seu corpo nas patas do cavalo do rei da Inglaterra em protesto contra o sistema que negava o voto às mulheres, e morreu.

É a partir dessa época e pelas ações de mulheres como as sufragistas que lentamente se começa a estabelecer o voto como direito das mulheres em vários países.

Hoje, em pleno século XXI, ainda há países em que as mulheres não podem votar, como o Kwait, por exemplo.

No Brasil, foi com muito trabalho, luta e sacrifício de muitas mulheres que direitos à educação, ao trabalho remunerado, à propriedade, ao voto e ao divórcio foram conquistados. Entre as precursoras estão Bertha Lutz (biologa, sufragista e feminista), Almerinda Farias Gama (advogada e líder sindical, uma das primeiras mulheres negras da política brasileira), Carlota de Queiróz (médica e primeira mulher branca eleita deputada federal na América Latina). O voto das mulheres veio em 1932, há só pouco mais de 80 anos.

E é neste mesmo Brasil, aqui e agora, em 2018, século XXI, que a mulher branca recebe +/- 70% e a mulher negra +/- 40% da renda do homem branco; violência contra as mulheres, nem falar, 1 feminicídio/2 horas (65% são mulheres negras), 5 estupros/hora; e, na política, do total de candidaturas eleitas em 2014, só 11,12% eram de mulheres e menos de 3% eram de mulheres negras; e ainda continuamos cravando os 30% de candidaturas de mulheres por conta de uma lei que manda ter, no mínimo, 30% de candidaturas de cada sexo (não, a lei não diz que tem que ter um mínimo de 30% de candidaturas de mulheres!). Isto parece justo? Parece certo? O tal “somos todos iguais” que tanto se escuta e se lê por aí leva isto em conta?

Mas, que tanto as mulheres quiseram e ainda querem o direito ao voto? Que capricho insistente é esse de querer escolher quem decide? De querer ser escolhida pra participar da decisão?

Ora, parece que o voto está diretamente ligado com todos os aspectos das vidas das pessoas. É através do voto que se decide quem vai tomar as decisões que vão definir tudo o que interfere em nossas vidas. Saúde, educação, segurança, habitação, trabalho, salário, o que pode e o que não pode; e, mais importante, ainda, pra quem pode e pra quem não pode, se todas e todos têm os mesmos direitos e oportunidades ou se só alguns serão escolhidos para usufruir de direitos, quem participa e quem fica de fora; o preço da comida, da roupa, do sapato, do combustível, do gás, do telefone, da luz, da água, de tudo o que se vende e que se compra. Tudo isso e muito mais. Tudo está relacionado com o voto. Porque tudo é decidido nos espaços de poder e decisão, espaços estes que são ocupados através do voto. O resultado do voto decide todos os dados estatísticos ali em cima e muitos outros que mostram a inequidade que é o ambiente em que vive este país.

Sério que precisava ter escrito este parágrafo anterior?

Mas, e se o voto das mulheres tivesse ficado só num episódio da mitologia? E se nenhuma mulher no mundo pudesse votar? E se não tivessem existido Olympe de Gouges, Emily Davison, Bertha Lutz, Almerinda Farias Gama, Carlota de Queiróz e outras mulheres como essas, muitas outras? Ou, se tivessem existido e tivessem ficado em casa, conformadas, sem se importar com nada do que se importaram?

Olha, se o voto das mulheres tivesse ficado só na mitologia, mulher não votava, não trabalhava, não estudava, não participava, não se manifestava e nem no Facebook estava.

Presta atenção: voto não é mitologia, voto é vida real.

Realmente é vida, decide a vida; não só a tua, a minha, mas a de todas as pessoas. O voto pode literalmente custar vidas. E muitas mulheres deram a vida pra que, hoje, a gente pudesse estar aqui estudando, trabalhando, votando e discutindo política.

Quem o teu e o meu voto vai levar aos espaços de poder e decisão? O que vai fazer quem elegermos pra alterar os índices e melhorar a vida das pessoas? Quem vamos eleger vai olhar pra todas as pessoas? Vai decidir pela inclusão ou pela exclusão?

Então, vota! Escolhe quem vai representar o teu ideal de país justo, vai lá e vota!

Pensa sobre cada um dos teus votos; este ano são seis espaços de poder e decisão que precisamos dar o voto, são seis votos: um pra Presidência da República, dois pro Senado, um pro Governo do Estado, um pra Câmara Federal e um pra Assembleia Legislativa.

E que Atena, a deusa da sabedoria, nos guie; ela (só ela) lá na mitologia e nós aqui na vida real.

Por Izabel Belloc Moreira
Imagem: Almerinda Farias Gama, direto da vida real, durante a eleição de representantes classistas para a Assembléia Nacional Constituinte, no Rio de Janeiro, em 1934. (Fonte: Memorial da Democracia.)

Comments

Comentários