Vulnerabilidades, privilégios e falsas simetrias

Vulnerabilidade não é algo exclusivo da população negra e pobre. Isto é um fato, porque se formos pegar o conceito de vulnerabilidade, estar na vida, nascer é em si da ordem da vulnerabilidade.

Mas é preciso e urgente que não esvaziemos discussões com base na simetrização das vulnerabilidades.

Se uma pessoa branca e rica se coloca em situação de exposição ela vai ter o aval de uma parcela considerável da sociedade para seu ato. Vai ter endosso. Impunidade vai muito além do fato de se fazer algo ilegal e não ser preso isso. Existe um risco na exposição? Sim, existe. Mas ele não é automático, porque o movimento de reconhecimento social por determinados corpos, que estão associadas a imagens aceitas em determinados lugares, não totalmente controladas, como é o caso de um homem branco de classe média e famoso, permite uma certa liberdade de agir/transitar e mesmo que seja punido pela justiça institucional, será defendido amplamente pela justiça, por assim dizer, civil.

Um exemplo bom que vi nas redes foi de que o efeito que vai provocar um homem numa marcha das vadias que clama pelo direito das mulheres de sair com os peitos de fora ficando sem camisa é totalmente diferente – e absolutamente não simétrico – de uma mulher que faça o mesmo. E isso vale para uma mulher negra que saia com os peitos de fora na mesma marcha, pois é esperado das mulheres negras que sejam vadias, ou que apareçam nuas. Se não fosse assim, estranharíamos em um grupo muito maior a nudez, anos a fio ,da Globeleza.

Foram anos de conversa e briga em torno desse tema. Mulheres brancas clamam por ser poder usar seus corpos como quiserem a partir da insígnia “vadia”. Mulheres negras por serem olhadas como mulheres.

É do ponto de vista da antecipação o que se passa em nossos corpos. O que parece producente para alguns é totalmente contraproducente para outros. E pode resultar em formas de penalização muito diversas/perversas. Simetrizar processos de vulnerabilidade produz outras vulnerabilidades. Não incluir debates insterseccionais esvaziam determinadas lutas.

Estou falando de racismo, mais uma vez. É cansativo, não quero falar apenas desse assunto, mas vejo a necessidade. É muito importante que possamos entender que quando falamos de racismo estrutural, estamos falando que tanto negros ricos quanto negros pobres sofrem racismo do mesmo modo, dentro do sistema capitalista. Existe desigualdade social produzida pelo capitalismo, mas não podemos esquecer onde ele nasce: na escravização de povos africanos. As mazelas do racismo pesam e produzem ódio anti-negro no mundo todo.

A exposição de um homem branco em uma plantação de maconha, onde ele refere ser seu próprio fornecedor, teria outra narrativa do ponto de vista da branquitude para um homem negro. Fosse ele rico ou pobre. O homem negro teria sua imagem associada à do traficante, por isso não veremos tal imagem feita por ele. Financiar o tráfico é também expor que existem pessoas que podem cultivar o próprio plantio, é uma forma de propaganda do privilégio que se tem. Aécio não está preso.

  • Existem pessoas sofrendo processo por pesquisar maconha? Sim. Sofrer processo é diferente de ser considerado criminoso. Existe o beneficio da dúvida, se não não haveria processo, haveria prisão e depois processo.
  • Essas pessoas podem ser presas? Podem, porque é esse o sistema que existe no nosso país e ele não vai ser seletivo o tempo todo, sob o risco de ser desacreditado, afinal de contas temos como acordo, no 13 de maio, que abolimos a escravidão então a justiça brasileira precisa de vez em quando dar exemplos da sua “não seletividade”. Desse modo, pessoas brancas podem ser presas.

Então, como organizar uma luta que seja anti-racista, que se contraponha à anti-negritude?

Estudando racismo, acreditando que ele existe e que não é apenas uma questão de classe, que é necessário encontrar no que já foi produzido pelos movimentos sociais negros em torno do assunto, as saídas que ainda estão sendo cobradas da população negra. Reconhecer que o racismo opera através de imagens, de narrativas excludentes, de controle de corpos.

Por Letícia Campos
Imagem destacada: Romare Bearden, The Dove, 1964 (foto via MoMA)

 

 

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