Momentos de solidão exclusivos da mulher
Existem alguns momentos de solidão suprema que são exclusivos da mulher devido à sua condição biológica. Sim, em tempos anti-materiais, nós continuamos sendo seres que, independentemente da nossa vontade e desejo, temos decisões a tomar a partir da nossa biologia. Isso, obviamente, não está separado da cultura de cada comunidade, de cada país, nem das interfaces entre classe e raça que vivemos aqui no Brasil. Mas, mesmo assim, aqui aparecem algumas que são comuns a todos nós.
1) A menstruação acontece e isso já nos lança para o patamar: é uma mocinha! agora tem que se cuidar. Eu ouvi isso da minha mãe, como milhares de outras também devem ter ouvido, ainda que em tom de brincadeira, como aconteceu comigo. Eu tinha 12 anos? Eu nem tinha beijado na boca. Me cuidar era exatamente o quê? Só entendi que eu era a única responsável por esse “se cuidar” e que qualquer coisa que me acontecesse foi por que eu não “me cuidei”. Mas uma criança de 12 anos é capaz de “se cuidar’? Solidão.
2) Então, passada a tal fase de “se cuidar”, que, na verdade, nunca passa. Entra a tal da fase, para mulheres casadas, solteiras, héteros ou lésbicas. Eu quero ter filhos? Sim, porque se você quer ter um filho biológico você é confrontada com essa questão, ao contrário do homem. O tal do “relógio biológico” existe para nos lembrar que a natureza não está interessada em ter mulheres velhas parindo. O nome científico dessa aberração, inclusive, uma gestante com mais de 35 anos, é “primípara idosa”. E só cabe à mulher decidir: ter ou não ter filhos, that´s the question. Solidão.
3) E se no meio do caminho ocorre uma gravidez indesejada? Nem vamos falar dos casos em que o aborto é permitido por lei. Vamos pensar sobre o comum dos dias. Essas sete bilhões de pessoas sobre a calota não foram todas desejadas, amadas, planejadas. Até mesmo decidir levar adiante ou interromper uma gravidez indesejada é algo para poucas mulheres. Muitas delas estarão presas a correntes de falta de informação, pobreza, religião, família etc que nem a permitirão pensar na possibilidade do aborto. E o pior. Muitas delas estarão tão sozinhas, tão sozinhas, que terão que decidir por si só o que fazer, como fazer. Muitas delas não poderão contar com ninguém nem na hora de abortar, nem na hora de ter o filho. Essa é a realidade absoluta fora da Zona Sul e dos Jardins. No fim, essa mulher vai ter que aprender que só pode contar com ela própria. Criminalização do Estado. Criminalização da Religião. Criminalização da Família. Criminalização, por vezes, do próprio parceiro, porque, ao contrário da menina de 12 anos que ficou menstruada, ele nunca ouviu de sua família: agora que virou mocinho, tem que se cuidar. Solidão.
4) Menopausa. Livre dos atributos destinados à mulher desde o momento do nascimento, poderíamos enfim ser livres? Não mais preocupadas com tarefas “femininas”, como ser desejável, bela, reprodutora, mantenedora da família. Deixamos, portanto, pelas vias biológicas-culturais, de ser mulher. Preocupamos com câncer, reposição hormonal, plásticas, regimes…porque é ainda necessário “se parecer” com a mulher jovem, em idade reprodutiva, ativa sexualmente. Porque, na nossa cultura, mulheres mais velhas, aparentemente, não têm mais vida sexual, enquanto os homens encontraram o Viagra (preste atenção, a pílula é nossa, o Viagra é deles..sacaram?) e a eterna “fonte da juventude”. Solidão. Invisibilidade.
5) E agora, mais essa. Ter ou não ter um filho se contraí zika. Mulheres, em São Paulo, já estão abortando apenas por terem contraído zika. Outras tantas, que já tem seus filhos diagnosticados, já veem seus parceiros (sic) irem embora porque, obviamente, “não aguentam”. O Estado nada faz por elas e seus filhos, A maioria, no Nordeste, vivendo em situação de pobreza, longe das capitais. A escolha final sempre recai sobre os ombros da mulher, não resta dúvida. Para as mulheres que com informação suficiente são capazes de decidir. E as tantas outras, que nem informação tem, que até engravidaram justamente por falta de informação? Uma mulher e seu filho com microcefalia. Solidão. Uma mulher que decide abortar um feto com microcefalia. Solidão.
Por Giovanna Dealtry
Imagem: Camila Geremias França
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