Queixa feminista
Por Sara Ahmed – professora anglo-australiana cuja produção acadêmica se encontra na intersecção das teorias feminista, queer, racial, crítica e pós-colonial. Publicado originalmente em inglês no blog da autora, feministkilljoys.
Eu ofereci uma equação feminista
Rolar os olhos = pedagogia feminista.
Quero dar sentido a essa equação, ou mostrar como ela faz sentido.
A primeira vez que pensei nesta equação – não necessariamente nesses termos exatos – foi na forma de uma sensação. Eu percebi o quanto eu havia aprendido a partir de olhos que rolam para cima quando eu abro minha boca quando escutava uma oficial de diversidade falar. Foi numa entrevista. Meu ouvido estava aberto; minha boca estava fechada. A oficial estava me contando sobre sua experiência em reuniões na universidade. Estas são as palavras dela, entregues a mim com força, bem como inteligência.
Ela disse:
“Você sabe que passa por isso nesses trabalhos onde você vai dizer alguma coisa e pode ver as pessoas pensando, ‘ih, lá vai ela’.”
Como nós duas rimos quando ela disse isso; ambas reconhecemos que a outra reconheceu essa situação.
Nós tínhamos, as duas, passado por isso.
Ih, lá vai ela.
Uma tarefa.
A oficial de diversidade é nomeada por uma instituição para transformar a instituição. Esse é o seu trabalho, um trabalho que faz com que ela, especulo, seja “fora do normal”, já que ela está tentando resolver as coisas. A ela é dado este trabalho: arrumar.
Desarrumado.
Como ela é ouvida? Nós aprendemos ouvindo. Aprendemos com a forma como somos ouvidas. O que significa dizer: nós aprendemos com a forma como não somos ouvidas. Essa é a base da minha equação feminista.
Outros dentro da instituição que também são nomeados por esta instituição, e que estão sentados ao redor da mesa, acham a presença da oficial de diversidade cansativa. Eles a ouvem apenas “reclamar”. Ela pode ouvir as pessoas ouvirem-na dessa maneira antes que digam qualquer coisa.
Ela tem que continuar apontando o que eles continuam fazendo. A repetição dela é impressionante, mas a da atitude não tanto, por ser familiar.
Foi um momento de transformação, esse de ter minhas próprias experiências tão perfeitamente encapsuladas nas palavras de outra pessoa. Esta entrevista foi realizada em 2003. Foi enquanto eu estava escrevendo Fenomenologia Queer (2006) antes de eu ter começado a pesquisa que me levou a escrever a minha crítica feminista da felicidade; antes que eu sequer tivesse pegado a figura da killjoy (estraga-prazeres) feminista e colocado ela para trabalhar. Comecei a pensar sobre essas experiências, tanto no trabalho como em casa, na mesa de reunião, no jantar com a família, quando minha fala foi encontrada por olhos que rolavam.
Eu aprendi isso também: como uma estraga-prazeres feminista pode reconhecer-se a partir do que ela recebe dos outros.
Ouvem-te como se você estivesse se queixando; ouvem-te como se você estivesse reclamando. Ouvem-te como alguém que expressa irritação com alguma coisa. Resmungando; resmungar; azeda; mal humorada.
Você pode estar oferecendo uma crítica cuidadosa. Você pode estar se cuidando. Não importa o quanto cuidado você toma, ou quanto tempo você passa articulando seu argumento.
É um julgamento rápido. Você é julgado antes de dizer qualquer coisa. O julgamento tem prioridade.
Chata feminista; chatas feministas; que osso.
Você é ouvida como se estivesse irritada. Pode até ser que você não esteja incomodada. Estar irritada não descreve a relação que você tem com um mundo que é objeto da sua queixa. Que irritante! Como é irritante percebida como a que está irritada!
Como te ouvem: você é formada, não encontrada. Você ainda se encontra lá.
Tão emocional; tão comovida ao ser ouvida como emocional. Você está acostumada a isso. Olhos revirados. Você está acostumada a isso. As feministas são ouvidas como sendo emocionais não importa o que digamos, o que quer dizer, mais uma vez, independentemente do que dizemos. Ser chamada de “emocional” é uma forma de ser ignorada. Que emocional. Olha ela.
Um recipiente, um recipiente com vazamento.
Tenha cuidado: nós vazamos.
E feministas de cor, também. Ela vai em frente. Digo.
Ela vai continuar.
Em vez disso, ela continua.
Uma queixa: uma questão de vida ou morte. Uma queixa: um golpe no peito. A palavra “reclamar” deriva da palavra “praga” (n.e.: em inglês). Nós ouvimos isso: uma questão de vida ou morte. Uma queixa: discurso doente. Talvez ela seja ouvida como alguém que fala de má vontade: não apenas ela mesma, mas disposta a faze o corpo todo transparecer a má-vontade.
Má vontade, intencional.
Eles escutam: controle de danos.
Não escutam.
Ela faz um anúncio. Ela é um anúncio. Ela atinge seu peito.
A palavra “reclamação” é impressionante. Vontade também é impressionante. Obstinação surge, como o braço da história dos Grimm com o qual eu abri meu livro. Aquele braço que pulsa com a vida tornou-se a figura-chave na minha história intencional de obstinação. Este braço não será um membro de suporte. O braço foi moldado pela história na qual de empresta sua mão para o mestre. Mas, tendo emprestado desta forma, o braço pode discordar. O braço construiu a casa, é o braço que vai trazê-lo para baixo.
Não admira que o braço venhaà tona; ele continua a subir. O braço é uma queixa. O braço é queixa feita carne.
Ela vem à tona; ela continua a subir. Ela não foi batida. Ela persiste. Mera persistência pode ser um ato de desobediência.
Ela atinge seu peito. O braço é impressionante.
A queixa é desobediência. Ela não obedece; ela está disposta a desobedecer.
Ser ouvida como quem faz reclamação: ser vencida.
Não estamos vencidas: fazemos uma reclamação.
Notamos o que surge. Não percebemos o chão se mexer. Que cena impressionante. Ela se destaca porque se queixa daquilo que não é revelado.
A reclamante: a revelação.
Que revelação.
Ouvem-te como quem está reclamando. E talvez você esteja fazendo uma reclamação. Ou talvez você esteja fazendo uma crítica, que é ouvida como se fosse uma queixa. Mas, para ser ouvida como quem está se queixando é também ser ouvida como quem falar de uma certa maneira: como quem se expressa. Ouvem-te assim você reclama porque está sendo a reclamação. Isto é o que a figura da feminista estraga-prazeres nos ensinou. Você está fazendo um ponto (apontando o machismo, apontando o racismo), porque essa é a sua tendência. Isso é o que você é. É tão você! Quando você te ouvem como apenas alguém que se expressa, então você não é ouvida. Olhos rolantes, como se dissesse: bem, ela vai fazer uma reclamação; ela é tão reclamona. E o que podemos aprender com os olhos revirados é que eles rolam antes que se diga qualquer coisa. Pode-se dizer qualquer coisa, você poderia estar falando sobre qualquer coisa, os olhos ainda rolam. Te ouvirem como se você estivesse reclamando é não te ouvirem de verdade.
Qualquer coisa: bastante coisa.
Reclamando, gemendo, fazendo lamúrias.
O anti-feminismo é uma estrutura da ordem da escuta, uma maneira de eliminar feministas de uma conversa; uma maneira de fazer com que certas formas de crítica sejam dispensadas antes mesmo de que elas sejam feitas.
E nós aprendemos: o anti-feminismo é uma extensão do machismo. As mulheres já são ouvidas desta forma – como quem reclama, faz lamúrias. Se as mulheres não aceitam o lugar que lhes foi atribuído, são ouvidos como quem reclama e faz lamúrias. Estes são atribuições intencionais; dadas para aquelas que não estão dispostos a aceitar o que a elas é atribuído.
Feministas: mulheres obstinadas.
Já ouvi esse julgamento expresso como ação; em ação. Alunas que testemunham sobre a suas experiências de assédio sexual, estudantes que precisam testemunhar mais de uma vez, são ouvidas como quem está reclamando. O que eles têm do que reclamar? Sim, ele é assim; é assim. Assim. Na hipótese há uma liminar. Aceite, não faça tanto barulho.
Pare de falar sobre isso.
Pare.
Começa novamente.
Que elas precisem testemunhar a violência repete a violência. E elas precisam depor, novamente. Como elas são ouvidos quando testemunham a violência reproduz a violência.
Reclamação: uma história de violência.
E nós sabemos disso também: os homens usam essa forma de ouvir as mulheres como justificativas para a violência, até mesmo feminicídio; ela era irritante, reclamava, lamentava-se.
Ela estava sendo.
Chata: ela estava sendo.
Tribunais de justiça tratam audiências assim como um direito, o que quer dizer que eles escutam a reclamação como justificativa para violência.
Isso é grave.
É fatal.
Uma distribuição de vida e morte pode ser uma distribuição de palavras.
Então, muitas de nossas histórias são histórias de palavras intencionais. Vamos pensar sobre a palavra “assertiva.”
Quantas vezes sujeitos de minorias são chamados de “assertivos”! Em sendo chamadas “assertivas” temos de nos tornar assertivas para enfrentar o desafio da chamada. Precisamos fazer valer a nossa existência, a fim de existir.
Outros: nem tanto.
Estamos cercadas por palavras que registram que alguns em estão acima de si mesmos. Pense na palavra “atrevida”. A palavra “atrevida” é provavelmente a mais explicitamente racializada das palavras intencionais, particularmente na política dos EUA. Adia Harvey Wingfield e Joe Feagin notam: “a palavra ‘atrevida’ tem sido muito utilizada por brancos racistas para descrever afro-americanos que ‘não sabem o seu lugar’.”([2010] 2013: 88). A palavra “atrevida” tem uma genealogia política muito específica, mas pode estar relacionada a outras palavras intencionais que implicam uma hierarquia racial e social: ser é julgado como estar acima de si mesmo, como se para “saber seu lugar” requeresse adaptação e submissão. Tais julgamentos são expressos em ação. Um julgamento é uma ideia em ação.
O que você tem do que reclamar? Ah, a necessidade de reclamar sobre a reclamação.
Devemos reclamar. Há muito que reclamar.
Justificativas de morte como direito; matar como um direito.
Quando como a forma como você é percebida é errada, é um erro, mas transformado em acerto.
Familiar.
Fatal.
Se elas não tivessem se queixado, algumas de nós não estaríamos aqui.
Se não nos queixamos, algumas de nós não estarão aqui.
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