Bandeirinhas
Volta e meia, meia e volta aparece algum companheiro de algum movimento defendendo nossos direitos enquanto mulheres e enquanto feministas. Mas vem cá, defendem também as bandeirinhas de futebol do machismo grotesco gritado pelos amigos?
Calma aí, vou explicar.
O movimento feminista não é contra os homens. Não queremos destruir os homens. Queremos desconstruir o patriarcado. Nossa luta é contra ele: o patriarcado; que nos limita e mantém essa estrutura social de poder social, político e público aos homens.
Há quem diga que isso é coisa do passado, mas segundo dados do IBGE, mulheres ainda recebem cerca de 30% a menos que homens pelos mesmos cargos. O desemprego de mulheres é maior que o de homens em todas as regiões do Brasil. Na Câmara, deputadas não chegam a fazer parte de 10%, no Senado são 16%. Temos uma presidenta que sofre machismo violento todos os dias. Apenas por ser mulher.
Dito isso sobre o patriarcado, voltamos aos sujeitos principais desse sistema: os homens. Muitos vêm aderindo ao feminismo e agregando desconstrução patriarcal em seus dias, nos deixando muito alegres com um começo de distanciamento da reprodução de machismo. Mas é necessário muito cuidado. Por quê?
Discursos do tipo: “você não gostaria que sua filha fosse assediada na rua” ou “respeita ela como se fosse sua mãe” e ainda “e se fosse sua irmã mais nova?” incomodam. Dá pra perceber o uso do pronome possessivo nas três frases? Existe uma permissão concedida ao machismo se a mulher desrespeitada não for SUA. Mas se ela pertencer a você deve ser respeitada, ok?
Não, nada ok.
Analisando historicamente a sociedade patriarcal a mulher nascia pertencendo ao pai. Ela pertencia ao pai até ser apresentada para a sociedade e passar a pertencer ao outro homem de sua vida: o marido. Até hoje, se declara “marido e MULHER” e não marido e esposa. Problematizando – porque a gente adora problematizar -, é como se a mulher passasse a ser mulher de fato, pertencendo ao homem – pai ou marido.
O resultado é que temos homens chegando no movimento feminista dizendo que nos respeitam porque sabem como é ter uma mãe, uma irmã, uma filha; e que por isso nos respeitam e nos entendem. Queremos respeito por possuir um corpo que é nosso, exatamente como o de vocês é de vocês. Não queremos ser respeitadas pelos homens acharem que possuem qualquer tipo de poder sobre alguma mulher que faz parte da vida deles. Fazer parte da vida de alguém não dá o direito de posse sobre a pessoa.
O patriarcado é essa sociedade que sobrepõe algumas pessoas privilegiadas sobre outras, indicando que o privilégio é ter poder sobre alguém. É daí que vem a aceitação social da cultura da posse. E que vamos desconstruir.
Homens são nossos aliados no movimento feminista. Mas não esqueçam que a voz é toda nossa. Que somos as protagonistas.
Mas que isso não tira o dever de vocês de defender as mulheres em uma roda de amigos, de dar um basta no companheiro que acha que a mulher deve fazer algo por ser “sua”. Vocês são os bandeirinhas e nós somos as árbitras. Acontece que os bandeirinhas podem ter um campo de visão privilegiado – que esperamos desconstruir para que não existam privilégios – em certas situações em que as árbitras não alcançam.
E é aí que os homens se tornam nossos aliados.
*Visão de uma feminista branca, cis e hetero.
Por Ana Cláudia Delajustine
Imagem daqui.
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