O trabalho invisível do feminismo acadêmico
Eu venho tendo a honra de ser professora de Estudos de Mulheres há 15 anos. Tive a sorte de ver alunas progredindo do seu primeiro ano letivo para uma grande variedade de caminhos satisfatórios. Mantive contato com muitas delas e fui capaz de testemunhar suas evoluções pessoais e políticas. Pode não parecer surpreendente para leitoras feministas atuais que muitas de minhas alunas antigas tenham abraçado o feminismo radical após a faculdade. Quando nos cruzamos mais tarde pela vida, estas estudantes estão ansiosas para me perguntar sobre política feminista. Talvez mais ao ponto, elas estão ansiosas para me perguntar por que não falamos sobre feminismo radical em sal de aula. Eu tenho algumas respostas, mas mais do que tudo essas perguntas me fazem considerar como a comunidade feminista vê o trabalho de uma feminista acadêmica.
Professoras de Estudos de Mulheres muitas vezes tentam encontrar suas alunas no ponto onde elas se encontram no processo de aprendizagem. Fazemos perguntas. Facilitamos o diálogo socrático. Poderíamos até privilegiar a compreensão dos alunos, o processamento de informações e a luta cognitivamente dissonante sobre nossa própria visão política. Na maioria dos dias, este é o trabalho de facilitar uma discussão produtiva e acadêmica em uma sala de aula de Estudos da Mulher. Reconhecemos as preferências de aprendizagem, estabelecemos acordos comuns e nos reunimos para tentar testar os limites de nossa compreensão. Isso na maioria dos dias. Hoje, eu vou dar palestra.
“Por que não falamos sobre o feminismo radical na aula?”
Perguntam-me o seguinte quase semanalmente: Por que professoras de Estudos sobre a Mulher não foram mais radicais? Por que não me falaram sobre a importância do espaço dedicado apenas para as mulheres? Por que me deixaram pensar que alguém poderia se “identificar” como uma mulher e, em seguida, enviar-me para um mundo onde feministas lésbicas e transativistas estão debatendo se um pênis é masculino ou feminino? (É do sexo masculino, por sinal, e se você tem um pênis, é irracional ficar louco quando lésbicas não querem dormir com você.)
Há muitas razões pelas quais alunas podem não se lembrar de falar sobre essas coisas em aula. A primeira e mais simples é que pode não ter dado tempo. Em média, instrutores têm cerca de 15 semanas para ensinar, para alunos que acabam de iniciar seus Estudos da Mulher, todas as coisas relacionadas com a mulher. A segunda razão é que somos humanos, e instrutores fazem escolhas sobre o que ensinar com base em áreas de pesquisa especializada e nível de conforto pessoal com o material. Em terceiro lugar, pode não ter cabido no currículo. Todos nós respondemos a alguém, e professores de Estudos da Mulher respondem a programas universitários, departamentos e padrões de acreditação – este é o sistema educacional, afinal. (Mais sobre isso mais tarde.) Finalmente, pode ter sido parte do currículo, mas os alunos esqueceram. (Ou não estavam prontos para ouvir.)
Mesmo que o ensino superior tenha a reputação de “promover uma agenda”, a grande maioria dos acadêmicos não são evangelistas. O fato de instrutores apresentarem informações específicas não significa que eles queiram doutrinar alunos. Idealmente, se estão seguindo boas práticas de ensino e aprendizagem, instrutores apresentam muitas informações diferentes e conflitantes, e em seguida facilitam o processo para ajudar alunos a trabalharem esses conceitos. Afinal, o cérebro que faz o trabalho é o cérebro que aprende. Eu nem sempre concordo com as informações que apresento aos alunos (olá, visões totalitárias de identidade de gênero), mas tudo bem. Estou tentando ensinar os alunos a pensarem por si mesmos.
Isso não quer dizer que eu nunca compartilhe minhas opiniões pessoais com os alunos; eu me identifico como lésbica, como feminista radical, como uma republicana em recuperação, como uma sobrevivente de abuso, etc a cada semestre. Estudiosos da pedagogia feminista têm pareceres divididos sobre isso, mas eu acredito firmemente que é difícil ser o que você não pode ver. Então, tudo isso é para dizer que se você se formou e em seguida encontrou um texto listando 343865 identidades de gênero e pensou para si mesmo, “Isso é uma porcaria!”, bem, então, eu considero que o sistema funcionou. Isso me diz que você desenvolveu um jogo de habilidade para separar o joio do trigo entre informações com que você concorda com e informações que você não concorda. Se isso parece uma isenção de responsabilidade, te entendo – mas também não deixa de ser verdade.
Para aqueles que não estão convencidos e ainda se perguntam por que os professores de Estudos da Mulher não apresentam visões feministas radicais: nós fazemos! Bem, alguns de nós fazemos… A notícia insatisfatória, entretanto, é que no geral, estudantes iniciantes não gravitam na direção de textos feministas radicais. De fato, alguns de meus ex-alunos que agora são feministas radicais não gostaram desses textos quando os designei há 10 anos. A educação é um jogo longo. Não podemos ir de “Isso significa que eu tenho que parar de assistir The Bachelor?” para “Vamos derrubar o sistema!” em uma semana. Os textos feministas radicais que lemos não são aqueles com os quais os alunos se identificam porque são difíceis de incorporar à visão de mundo existente. Como muitos leitores sabem, eles fundamentalmente exigem que a gente mude de visão de mundo. Em vez de encontrar maneiras criativas de trabalhar dentro de um sistema existente, o feminismo radical exige a abolição completa do sistema. Para muitos estudantes de graduação, o feminismo liberal – e a flexão que se deve fazer para acomodar sua política – é um trampolim para uma política mais radical.
“Você não está interrompendo meu verdadeiro trabalho. Você é meu verdadeiro trabalho.”
O que tudo isso significa em relação às formas com que pensamos a respeito do trabalho de uma feminista acadêmica? Se combinarmos os exemplos acima, de construir as habilidades de pensamento crítico dos alunos e encontra-los no ponto onde eles estão no processo de descobrir o feminismo, surge um tema primário: o ensino é centrado no estudante e muitas vezes se faz necessário privilegiar o processo do aluno ao invés da agenda política do instrutor. É tudo sobre os alunos.
Eu incluo uma frase no currículo da disciplina que leciono que diz: “Você não está interrompendo meu verdadeiro trabalho. Você é meu verdadeiro trabalho. ” E é aí que irrompe a divisão entre o trabalho visível e o trabalho invisível de uma feminista acadêmica. Os alunos são o verdadeiro trabalho. É impossível desfazer esse ponto. Existe esse mito de que o ensino é uma vocação – que as pessoas o fazem por amor, e se você ama o seu trabalho, nunca trabalhará um dia em sua vida. Mas eu estou aqui para lhe dizer que é trabalho duro. Os estudantes – e o resto da comunidade feminista – muitas vezes não vêem isso como trabalho por que isso se parece demais com o dia-a-dia da vida real. Vem comigo.
Em algumas disciplinas, os alunos facilmente separam o conteúdo demonstrado em sala de aula do que acontece no mundo “real”. Por exemplo, quando eu estudava álgebra, passei a maior parte do semestre me perguntando como poderia usar essa informação na vida real. Estudos de mulheres muitas vezes não têm esse problema, porque nós falamos sobre a vida real. Nós conectamos. Nós compartilhamos e lutamos juntas. É às vezes até divertido. Mas essas experiências de sala de aula não acontecem organicamente. Nós projetamos e escolhemos experiências de aprendizagem para os alunos – aqueles momentos “AH É” em sala de aula não acontecem por acidente. Lemos a escrita do aluno, elaborando cuidadosamente comentários que os encorajem, que corrijam saltos lógicos e análises rasas, e (às vezes) gentilmente os orientamos para longe das coisas que estão simplesmente erradas. Participamos de comitês curriculares, defendendo cursos inclusivos e diversas experiências de aprendizado para os alunos. Nós lutamos furiosamente para que estudantes possam sentar-se em uma sala de aula de Estudos da Mulher, porque essa oportunidade está quase sempre sob ataque. Grande parte desse trabalho é invisível para os estudantes e comunidade feminista, que muitas vezes se decepcionam com a maneira como aparecemos (ou não) em círculos ativistas e debates online mais visíveis. Mas aqui é que o carro proverbial encontra a estrada: nosso trabalho está presente, mesmo quando nós não estamos.
Tenho uma querida amiga e colega que também trabalha no ensino superior, ensinando alunos a serem ativistas e organizadores comunitários. Desde que seus alunos começaram a comentar seu ativismo nas redes sociais ela passou a responder com #JanesLabor (#OTrabalhoDaJane), para tornar visível o trabalho que ela faz. Os alunos são o nosso verdadeiro trabalho. Eu não estou tentando tomar o crédito pelo trabalho que os alunos fazem – em vez disso, estou tornando visível o produto do maior investimento de tempo e energia feito por muitas feministas acadêmicas: estudantes no mundo fazendo a diferença. Você é o trabalho que apresentamos ao mundo. E amamos o trabalho que fazemos. Nós te amamos! Mas nos dê um pouco de crédito. Mesmo que seja apenas porque grande parte do trabalho feito por mulheres não seja reconhecida e seja subestimada. Fomos nós que te ensinamos isso – caiu na prova e tudo.
Amanda Irvin, PhD, ensina Estudos de Mulher na Universidade de Columbia. Ela é especializada em escrita de mulheres, aprendizado ativo e sucesso do aluno.
Texto originalmente publicado em inglês no site feministcurrent.com
Imagem destacada: University of South Carolina
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