O Feminismo Radical é extremista?

 

A Teoria Radical não é uma corrente “extremista” do feminismo e não tem a mesma perspectiva de ações como o FEMEN, com quem é comumente confundido. O Feminismo Radical é uma teoria, embasada em pesquisas e estudos a que as mulheres passaram a ter acesso (no mundo ocidental, pelo menos) a partir dos anos 60.

A teoria atualmente difundida foi cunhada na década seguinte por coletivos americanos, e visa explicar a origem da opressão feminina. Obviamente, a grosso modo, podemos dizer que as mulheres que passaram a ter acesso ao ensino superior experimentaram o lado machista da sociedade e passaram a questionar o porquê de tudo aquilo estar acontecendo, já que elas se consideravam (como lógico, deveriam) tão capazes quantos os homens em termos intelectuais.

Deve ter sido um choque de realidade enorme chegar na faculdade e encontrar situações como ser proibida de assistir à uma aula por vestir uma saia considerada muito curta, enquanto um estudante homem, que estuprou uma estudante dentro do campus universitário, tivesse a permissão de se formar. Esses dois fatos aterradores são, na verdade, bastante recentes na história brasileira, ocorridos nos últimos dois anos. Se, em 2017, ainda estamos nesse compasso, é possível imaginar o tipo de misoginia que essas teóricas estavam enfrentando em 1970.

A teoria explica que a opressão feminina é sexual. Tudo o que envolve o sistema reprodutor feminino é demonizado. Nosso ciclo, nossos pelos corporais, o nosso desejo sexual são considerados sujos. A nossa inteligência, a nossa capacidade de resolver problemas, as nossas habilidades em qualquer área é considerada inferior. A única coisa considerada “sagrada” pela sociedade patriarcal é a maternidade.

O motivo pelo qual a maternidade seria “pura” e superior estaria no fato de sermos as únicas capazes de gestar, parir e amamentar. Por essa razão, somos socializadas a almejar apenas ser mães. E aí estaria toda a complexidade da nossa submissão. Em termos leigos, somos criadas para dar herdeiros ao patriarca. O patriarcado, como termo, foi cunhado por essa teoria para denunciar que os homens são socializados para ser de uma classe superior da sociedade, a que domina, lesgila e ordena. As mulheres são criadas para ser submissas aos homens.

O feminismo radical não é extremista e não incita ódio aos homens, mas luta pela abolição dos esteriótipos de gênero, que são construtos sociais. Luta-se não para que a mulher se torne a classe superior na sociedade, mas para que elas não sejam mais subjugadas pelo sistema patriarcal.

Não existem privilégios para as mulheres na “sociedade do patriarca”. Privilégio é um tipo de “presentinho” que se ganha a mais. Imagine uma aldeia onde uma pessoa conseguiu encontrar água potável para todos, e por esse feito ela recebe um tratamento melhor que os outros, como um prato a mais de comida, enquanto o resto da comunidade tem que racionar os alimentos e ficam com mais fome do que o habitual.

As feministas radicais lutam para que privilégios não recaiam somente aos homens, mas para que, como no exemplo acima, todos possam comer bem sem que falte ao outro. Elas não estão exigindo privilégios: estão exigindo direitos básicos que a maioria não tem no momento, como segurança, educação, saúde, respeito, salário igual aos homens nas mesma funções e com as mesmas qualificações.

Gênero, do modo como tem sido espalhado atualmente, é um conceito que não tem contemplado as mulheres que são designadas como fêmeas ao nascer. Ele carrega uma lista de esteriótipos como a submissão feminina, a docilidade, o instinto maternal (que pode existir num contexto onde a mulher percebe que ela é capaz de parir naturalmente seguindo o que seu corpo manda, por exemplo, ou seja, quando ela, conscientemente, escolhe ser mãe), a propensão aos cuidados e a inferioridade intelectual. Nenhuma dessas características é inata em uma mulher, portanto são aprendidas no contexto social para, segundo a teoria radical, nos manter presas ao papel de procriar (de apenas procriar, diga-se de passagem).

Sexo biológico importa para a luta feminista porque é a nossa biologia que nos remete a um papel com o qual não nos identificamos. Nós não escolhemos ser dominadas, mas anos de dominação masculina nos moldam para obedecer. Vestir-se com o que é considerado feminino, gostar de brinquedos considerados de meninas, ter aparência de mulher não faz de uma pessoa nascida homem alguém que passa, desde a infância, pela carga pesada que é ser uma pessoa inferiorizada. Nossas trajetórias são diferentes.

Relatos de mulheres e homens trans exemplificam isso muito bem. A transição trouxe a essas pessoas uma aceitação que não tinham quando eram do sexo oposto. Mas os homens trans relatam dificuldades em fazer amizade com homens nascidos porque não entendem como se dá a construção de amizades entre homens. Vêem que, quando não há mulheres à volta, os homens as sexualizam o tempo todo. Que passam a ser tratados como uma ameaça aos outros, embora também relatem que, quando eram fêmeas, não conseguiam aprovar projetos como conseguem agora, e recebem muito menos reclamações.

As mulheres trans, por sua vez, relatam que direitos básicos que sempre tiveram somem, como o direito de fala. Também relataram a homens trans (nada é invenção, essas informações foram obtidas num artigo que entrevistou cinco homens trans) que passaram a ter dificuldade em ter projetos aprovados e também contam com mais reclamações sobre o seu trabalho e as suas atitudes.

È realmente isso que precisamos? Resolver o problema da aparência, mas fazer pessoas nascidas como homens passarem a sofrer as opressões que todas as mulheres nascidas sofrem sem poder de escolha? É até compreensível que pessoas designadas mulheres ao nascer rejeitem os esteriótipos de inferioridade reservado às fêmeas humanas, mas não seria mais produtivo que ninguém mais fosse oprimido?

É contra esses esteriótipos de gênero que o feminismo radical luta. É “extremo” apenas quando se trata de todas as pessoas do mundo, e não apenas de um grupo isolado e minoritário. Mulheres (fêmeas humanas) são a metade da população mundial e a sua opressão vem de muito longe, dos tempos em que elas próprias criaram a agricultura, dando início às primeiras civilizações conhecidas, e sendo jogadas para uma espécie de “casta” subjugada para servir aos proprietários de terras cultiváveis.

É urgente discutir os papeis de gênero que colocam mulheres (inclusive trans) numa classe a ser oprimida. Questionar a construção do gênero é questionar a veracidade da submissão, delicadeza e inferioridade das mulheres. É questionar vestimentas com gênero, é questionar a razão pela qual as mulheres são forçadas a se depilar e a esconder os seios e a menstruação. Questionar os papeis de gênero é colocar na mesa que não importa a sua aparência, mas a sua capacidade em todos os sentidos.

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