Recortes feministas que excluem… mulheres?
Há um debate acirrado acontecendo agora entre feministas brasileiras e parte dele é informada por recortes específicos usados por algumas (das várias) vertentes do movimento a respeito de um assunto em particular. Neste artigo, e em relação a um outro tema, argumento que existem recortes (em outras palavras, perspectivas de inclusão) que estão simplesmente errados.
Nos últimos tempos tenho acompanhado diversos debates feministas sobre mulheres child-free (sem filhos), sobre mães abusivas, e sobre mães que optaram por passar tempo integral com seus filhos. Por ser eu mesma mãe de dois e por saber perfeitamente como a tarefa da maternidade pode ser complicada (pelo seu viés compulsório, pela ineficácia dos métodos anticoncepcionais e pela falta de apoio crônica às mães), me proponho aqui a oferecer os principais pontos de discórdia nestes espaços.
No movimento child-free, a escolha entre ser ou não ser mãe não parece estar em questão. A maioria das mães que eu conheço são a favor do direito à escolha, por saberem que ser mãe envolve muito mais do que gestar, parir e amamentar. É possível inclusive ser mãe – e ser uma mãe excelente – sem fazer nada disso.
No entanto, no suposto movimento child-free vejo crianças sendo odiadas e mulheres que têm filhos sendo execradas… com a desculpa de que a maternidade seria uma prisão. Aqui algumas fazem o recorte de que a maternidade é um “privilégio” das mulheres que nascem com útero e vagina.
Algumas mulheres que se declaram feministas child-free parecem usar o movimento para se sentir no direito de dizer que odeiam crianças. Não podemos dizer que odiamos crianças. Crianças são um grupo vulnerável, o que mais precisa da nossa proteção. Não querer ter filhos é um direito válido, mas não segue que seja também o direito de odiar crianças. Quem odeia um grupo de pessoas e não consegue ficar à vontade perto deles precisa repensar essa relação. Porque quando odiamos um grupo, queremos distância dele. Mas quando excluímos crianças, excluímos as mães. Excluir crianças do feminismo é excluir mães do feminismo. E mães precisam de feminismo assim como o feminismo precisa de mães.
Já no debate sobre mães abusivas sobram acusações para as mulheres que, tendo sido elas mesmas oprimidas pelo sistema patriarcal, falharam em ter empatia e/ou sororidade com suas filhas. Essas filhas feministas infelizmente ainda não descobriram que elas não têm a menor obrigação de aturar uma mãe abusiva. Mas que, como feministas, precisam ter empatia e exercer a sororidade para com essas mulheres, pois inevitavelmente elas passarão por mais situações machistas.
Finalmente, as discussões acerca da questão da maternidade em tempo integral. Em alguns grupos de redes sociais floresce a ideia de que maternidade é um erro crasso da parte de uma mulher, visto que é impossível atingir quem dirá manter equidade plena com homens em um mercado de trabalho competitivo que exige ambientes child-free, numa sociedade que reforça que a responsabilidade de cuidar dos filhos é das mulheres, quando há tanta pressão e culpa sobre as mães que não amamentam ou amamentam ou isso ou aquilo. Imagina, então, ser uma mãe que não tem um um trabalho remunerado que garanta a sua independência completa, e é sustentada pelo pai da criança? Esse parece ser um pecado mortal. Segundo essas mulheres, é um retrocesso e um tapa na cara do movimento feminista.
Mas aí chegamos no cerne da questão: o movimento feminista não está, justamente, lutando pela libertação das mulheres?
Existe maternidade libertadora? Existe maternidade onde a mãe é sustentada financeiramente e se dedica apenas aos filhos como principal atividade diária e que não represente mais um molde institucionalizado de opressão? Existe. E podem existir muitas situações mais.
Esta é uma pauta feminista: o poder de decisão da mulher, sua emancipação. Esta é uma tarefa árdua e maternidade a complexifica muito. É possível ser mãe e feminista, e abrir mão da carreira e/ou de se sustentar sozinha. Isso não é prisão: é uma adaptação a uma necessidade, que pode ou não ser momentânea.
O lugar da mulher é onde ela quiser. Esse é o recorte.
Um recorte, num movimento, é criado para incluir pautas. Não é à toa que existem vertentes dentro do feminismo. Mas recorte que inclui é bem vindo. Recorte que exclui, que massacra e silencia mulheres, este está mais do que fora do lugar.
Por Andreia Nobre
Imagem: Gustav Vigeland Woman and Children
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