Quando se é mãe
Quando se é mãe
Não se pode querer um tempo a sós
Quando se é mãe
Não existe isso de estar exausta, afinal quem “pariu mateus que o embale”
Quando se é mãe
Não tem essa de sair para dançar, onde já se viu uma mãe rebolando até o chão com o copo na mão?
Quando se é mãe
Não tem essa de short curto e de sainha não. Mãe tem que se dar o respeito
Quando se é mãe
Não existe sexo casual. Que horror, que desonra, já não basta ser mãe sem ter casado?
Quando se é mãe
Não pode namorar, já está namorando outro? Colocando homem dentro de casa? Logo, logo arruma outro filho.
Quando se é mãe
É necessário arrumar um homem de bem, para constituir família, porque mãe com filho não é família.
Quando se é mãe
Não pode estar cansada demais para não querer cozinhar, fazer miojo, colocar a cria em frente à TV ou se jogar na cama. Que horror! Que relaxada! Coitada da pobre criança que não pediu para nascer
Quando se é mãe
Tem que se abrir mão de tudo: passeios, namoros, estudos. “Na hora de abrir as pernas foi bom, né?” A vida é assim, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco.
Quando se é mãe
Não pode amar outra mulher. O que os filhos vão aprender?
Quando se é mãe
Não pode trabalhar muito, senão coitados dos filhos, vão ficar largados por ai
Quando se é mãe
Não pode ter pensão do pai apenas. Que preguiçosa, interesseira, coitado do pobre homem que caiu no golpe da barriga
Quando se é mãe
Tem que renunciar tudo: passeios, namoros, estudos. “Agora guenta, porque não pensou quando abriu as pernas?”
E também não pode ser a favor do aborto, e não pode sair para beber e não pode, não pode, não pode. Uma infinidade de “não pode”.
O pai, o homem, ninguém liga, ninguém tá nem aí. Pouco importa o que ele faz. Pelo contrário quando paga a pensão em dia, troca fralda e lava a louça, ele é condecorado, elevado a um semi deus. Um semi deus que não faz nada mais que a obrigação. Que não tem todo dia o dedo na sua cara dizendo o que deve ou não ser feito. Dificilmente um pai abandona faculdade, abre mão do trabalho e se tranca em casa sem vida social.
À mãe, à mulher, cabe a submissão, a resignação dos dias, da vida, A renúncia dos estudos, da vida profissional, das oportunidades. Porque o patriarcado nos ensina que nascemos prontas para a maternidade, que toda mulher tem o tal instinto materno, que amadurecemos mais cedo. À mulher resta a culpabilização, a romantização, o desamparo, a violência estruturada, a exploração e o julgamento.
Quando se é mãe você percebe que existem poucos espaços seguros no mundo e é por isso que reivindicamos tanto nossos espaços dentro do feminismo. Precisamos ser ouvidas, ser acolhidas. Precisamos ocupar espaços junto com as nossas crias barulhentas. Precisamos ter voz, porque o mundo lá fora nos quer caladas, mudas, silenciosas.
A gente precisa de um feminismo que nos receba, nos abrace e que seja para todas. Pois como disse Audre Lorde “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas.”
Por Fernanda Vicente
Imagem destacada: everydayfeminism.com
Comments
Comentários




