No topo do mundo. SEM dieta.

Eu fiz minha primeira dieta com 8 anos de idade. Depois de ter feito um tratamento com corticóide acabei engordando um tanto, e a médica que me atendia recomendou uma tal dieta dos pontos. Em principio curti, pois era uma nerdzona que adorava um desafio/provar que eu poderia fazer as coisas. Mas eventualmente a dieta dos pontos ficou insustentável, e foi com essa idade que tive a primeira experiência do que é “falhar” numa dieta.

Com 12 anos fiz uma dieta dessas de “reeducação alimentar”. Mas queria emagrecer nas férias antes de voltar pra escola, a todo custo, então fiz também a dieta da sopa (para quem não é familiar: você come uma sopa horrorosa de legumes por uma semana junto de ALGUMAS outras verduras e frutas. Eu dormia o tempo todo pra disfarçar a fome). Emagreci significativamente, mas não adiantou nada, pois eu achava que ainda estava gorda, mesmo com todas as roupas caindo.

Acho que com 14-15 anos eu conheci no Orkut as comunidades Pro-Ana, que reverenciavam anorexia, e aprendi várias “dicas” boas. Ali ensinava-se a forçar vômito (taí uma coisa que aprendi bem…), a fazer de conta que você tinha comido, e mais um zilhão de absurdos.

Eu tentei seguir várias dessas “dicas”, mas estudava o dia inteiro, e no fim desistia porque não conseguia ficar fraca e ruim da cabeça. Não tive nenhum distúrbio como anorexia ou bulimia e sou grata às deusas até hoje por isso. Apesar disso tinha uma auto-estima terrível, que me levou a episódios auto-mutilação e a um relacionamento abusivo que roubou dois anos da minha adolescência.

Com cerca de 16 anos passei por uma combinação de “reeducação alimentar” com remédios manipulados (que até hoje não sei o que eram), e de novo vi a felicidade de todos a minha volta porque pela primeira (e única) vez na adolescência entrei numa calça 38.

Claro que o peso voltou, e com 19 anos, um endocrinologista olhou para o meu rostinho jovem e saudável e achou que eu precisava tomar um remédio tarja preta, que até hoje não sei o que era – que fez eu emagrecer mas me deixou completamente louca (de novo: quem se importava né?).

Depois disso esse ciclo não terminou, eu continuei emagrecendo/procurando profissionais diferentes, que sequer queriam saber da minha história, ou da minha rotina, ou da minha relação com a comida, e apenas prescreviam uma dieta de “REEDUCAÇÃO ALIMENTAR” que era na verdade um cardápio pronto, cheio de barrinhas de cereal e essas porcarias assim – que era obviamente insustentável a longo prazo, e ruim pra MINHA vida.

VALE SALIENTAR, que até então eu não era gorda de verdade.

Hoje eu consigo reconhecer isso.

Eventualmente eu fui morar em Dublin e lá, pela primeira vez na vida, emagreci sem estar trabalhando pra isso. Então pensei que talvez eu devesse aceitar quem eu era e ponto. O feminismo também apareceu na minha vida nessa época. Meu segundo ano na Irlanda foi mais puxado e problemático, por isso acabei começando a comer mais comida pronta/congelada, e engordei uns bons quilos. Mas eu estava longe de casa, estudando, aprendendo a me aceitar, e estava conseguindo lidar bem com isso…

ATÉ eu voltar pro Brasil. Até começar a ouvir sugestões de dietas, do garçom do restaurante ao parente bem intencionado. Até ouvi vendedora de loja dizer que “tem uma peça bem maior, do tamanho de uma lona de circo, que vai caber em você”.

Eu sentia que eu era um problema que precisa ser consertado, ou escondido.

Foi o único período da minha vida que eu fui obesa de verdade. Quando isso aconteceu e eu percebi, encarei meio que como uma rebelião mesmo. “Vocês me encheram tanto o saco a vida toda que, olhem só, agora estou gorda mesmo e vocês vão ter que me aceitar”.

Mas isso tampouco se deu por muito tempo.

Eu trabalhei muito pra me aceitar, e talvez tenha me sentido melhor do que em alguns períodos que citei antes, quando eu estava bem mais magra, mas não estava legal. Eu não queria viver no nervosismo de saber se a calça que eu tinha comprado não iria mais servir no próximo mês porque ainda estava engordando. Então quando comecei a mudar de vida, foi porque eu queria ter controle sobre meu corpo. E até hoje debato sobre os motivos que me levaram a querer emagrecer, mas são coisas que eu ainda estou aprendendo a lidar.

Tem gente que ouve esses papos e diz “nossa mas claro que engordou tava fazendo tudo errado a vida toda” ou “você não estava procurando os profissionais certos”.

Só quero dizer que o motivo de eu estar compartilhando essa minha história éjustamente pra afastar esse tipo de pensamento. Hoje eu consigo ver como não tinha como ter resolvido “o problema” mas notem que eu ACHAVA que estava fazendo a coisa certa e procurando profissionais pra me ajudar.(Até porque muito tem se publicado sobre como nosso entendimento de como se emagrece/engorda é completamente errado)
Com tanta conversa sobre ser saudável, eu vejo muita gente que nunca teve que pensar a respeito na vida apontar os dedinhos. E eu digo que se um determinado estilo de vida funciona pra vc é bem legal, MAS porfavorpeloamordedeus afastem esse pensamento de que “ué mas fazer dieta é tao facil, eu emagreci x kgs pq gordo fica reclamando”. Apenas não gente. Estou compartilhando isso tudo pra mostrar o peso que uma frase como “é só fazer dieta” teve na minha vida. É muito discurso ensinando as pessoas a se odiarem, disfarçado de um “estilo de vida saudável”.

Faz pouco mais de um ano que comecei a mudar meu pensamento de verdade e, olha, tem sido bem doido.

Foram muitas negociações intensas para aprender que a comida era minha aliada, não minha inimiga. Eventualmente comecei a gostar de me exercitar – o que eu achava uma missão impossível, sendo desajeitada como sou, mas vou no crossfit quase todo dia e curto de verdade. (Continuo desajeitada, tiro foto de cada hematoma novo, adoro não ter mais dor nas costas e ter melhorado minha ansiedade, mas isso fica pra outro dia.) Parei de achar que salada era meu castigo, que me exercitar era uma forma de humilhação pra atingir o corpo que faria com que eu fosse aceita pela sociedade. Mas foram anos e anos… E foi assim que aprendi a me amar mais.

Pode parecer que estou querendo compartilhar minha ~história de sucesso, afinal emagreci um tanto, mas NÃO É ISSO.

Eu queria ter me aceitado. Eu queria que a gente não precisasse falar disso, que nossos corpos não fossem assunto de ninguém. Eu queria não pensar, toda vez que eu vejo uma mina gorda linda e de boas, “AFE QUE GUERREIRA LINDA MARAVILHOSA”, mas apenas “QUE LINDA MARAVILHOSA”. Apesar de não saber as histórias de todas, não consigo não pensar que a pessoa tenha tido que criar uma casca grossa para lidar com a gordofobia – vide a vendedora da loja, o garçom aleatório, e os parentes bem intencionados que comentei antes. Aproveito para dizer que sei que nem toda experiência de ser gorda é igual, e estou aqui disposta pra ler as experiências de quem quiser falar.

Tenho fotos de antes e depois, e por vezes me sinto meio culpada por olhá-las com uma certa satisfação. Nunca vou compartilhá-las, porque sempre pensei que fazer essa comparação era mostrar que o meu “antes” era uma versão horrorosa de mim mesma, da qual “graças a deus me livrei”.

Depois de ter sido magragordaobesamagra, o que sei é que sempre fui muito legal. Só fico triste porque antes eu era mais insegura e vivia nessa guerra, não tinha noção que meu corpo era tão massa.

(Espero, de coração, não ter ofendido ninguém com esse desabafo. Se o fiz, por favor apontem!)

A foto que ilustra esse texto é uma foto de quando eu estava mais gorda do que hoje em dia, mas ela foi tirada num dia maravilhoso em que eu e minha amiga Mari estávamos passeando por Edimburgo, e mesmo depois de não ter dormido a noite inteira (os colegas do hostel ficaram fazendo bagunça), mesmo com zero preparo físico, e mesmo fazendo zero graus com aquele vento horroroso da Escócia, eu disse para a Mari: “Vamos escalar aquela colina, pois a vista é bonita”, e por algum motivo ela concordou e nós quase morremos, mas tiramos uma foto vitoriosa no topo do mundo.

Por Giovana Medeiros Milanezi

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Uma psicóloga feminista em luta por mais afeto. Implica com a linguagem sexista e acaba com a graça em piadas machistas. Vive de amores. É uma multidão e explosão de sentimentos. Inquieta, teimosa e bruxa, tem fé nos encontros do mundo.

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Artista, artesã, designer – é o que costumo colocar nos cartões de visita. Ler e acumular livros de variados assuntos são tradições familiares. Já sonhei ser arqueóloga, pensei em cursar História, Filosofia, Sociologia ou Arquitetura, mas acabei escolhendo Artes, onde posso misturar tudo isso. Gosto de viajar pelo mundo, mas sempre volto para casa. Sou curiosa por natureza e tímida que fala pelos cotovelos se tomar muito café ou vinho. Mãe por opção e determinação. Para uns, sou muito certinha e para outros, muito doida. Na verdade, sou um pouco de cada.”

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Camila França

Camila França
Formada em Moda pela Udesc (2005) e pósgraduada pelo SENAC (2009) em Florianópolis, trabalhou por oito anos na indústria da moda como estilista. Em 2013, partiu em busca de qualidade de vida e atualmente dedica quase todo seu tempo ao desenho. Frequenta aulas de Artes Visuais a fim de conhecer e desenvolver sua própria poética. Seus desenhos exploram o universo feminino com técnica mista, grafite, nanquim, aquarela, marcadores e tinta acrílica.

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Jornalismo é a formação, produção de moda é o ganha-pão, escrita é a paixão. Radicada em Londres há mais de uma década, estudou no London College of Communication e depois foi trabalhar com um bocado de gente grande, de Adidas à Ivete Sangalo, da TPM à Vice, e gostaria de largar tudo e só escrever. Além de feminista, é progressista, ateísta, e uma porção de *istas* que causam desconforto por onde passa. Mãe de uma garotinha de 4 anos, com quem divide uma paixão por filmes japoneses e contos de fadas subversivos.

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Thainá Battesini Teixeira, é gaúcha e tem 23 anos. Está no último ano de graduação em História pela Universidade de Passo Fundo – UPF e é bolsista de iniciação cientifica – CNPq pesquisando as Fontes Visuais Impressas: Possibilidades de Pesquisa: Os papéis sociais atribuídos ao gênero feminino na Revista KodaK. Milita pelo Coletivo Feminista Maria, vem com as outras! e participa da organização da Marcha das Vadias de Passo Fundo no Rio Grande do Sul.

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Formada em jornalismo, é  goiana, vira-lata, caçula de sete e doidinha de amores pela vida.
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Gosto de gente, de relações, de vida, de ajudar as pessoas a mostrar o valor do seu negócio, de ver uma empresa ir em frente, ser forte. Tive minha agência de comunicação por quase cinco anos, atuei em áreas de planejamento e também com inovação e gestão de pessoas. Paralelo a isso, como consultora, tive a oportunidade de dar vida para mais de uma dezena de empresas, ajudar tantas outras no processo de reposicionamento e ver surgir diversas campanhas e marcas. Hoje, estou a frente da Patrícia Chiela Estratégia de Marca, que atua para que a comunicação e o marketing ajudem uma empresa a olhar para frente, profissionalizar o negócio, construir o seu valor e prosperar.

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Arquiteto e designer por formação, [des]construtor de espaços por ideologia.
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An explorer, Belle is about to set sail on a voyage of discovery that will be  her toughest expedition yet.  Look out for her dispatches from the frontier as Belle Kurves embarks on a quest to find the “new truth” foreshadowed by Hester Prynne – the key to establishing “the whole relation between man and woman [indeed all genders] on a surer ground of mutual happiness.
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Advogada especialista em direito público e de família, vegetariana e meia maratonista. Não convida se não tiver vinho. Chora toda vez que vê uma ovelha.

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Beatriz Demboski Burigo

Estou no caminho pra uma graduação em Ciências Sociais, na UFSC em Florianópolis. Gosto muito do ativismo dos movimentos sociais, mas a minha praia mesmo é o backstage e o olhar sociológico sobre tudo. Sou de humanas, mas nem tanto! Amo antropologia, assim como amo falar sobre cultura pop, gênero e feminismo. No momento, pesquiso oficialmente sobre sociologia da educação, que é mais uma de minhas áreas de interesse.

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Ana Paula Ferraz

Uma figura que vai variando entre a curiosidade sobre pessoas e lugares e o interesse por culturas e olhares. Psicóloga, metida com psicanálise, política e sociedade. Poeta de boteco, cervejeira de calçada, cantora de chuveiro. Enfim, mais um mistério do planeta.

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A meliante Ana Emília Cardoso é uma jornalista curitibana, com passagem por Florianópolis onde esteve detenta em mestrado de Sociologia Política. Por questões de segurança foi transferida para Porto Alegre e está em liberdade condicional. Trabalha com moda e pesquisas, tem 2 filhas, um marido famoso e acredita que pode mudar o mundo empoderando as mulheres.
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Vestibulanda de letras. Desengonçada com a vida e jeitosa com as palavras. Possui diversos pseudônimos, intencionada a desnudar-se de aparência e travestir sua alma com novas visões de mundo. Queria ser Maria. Descobriu-se feminista há não muito tempo, e tem muito que aprender.

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Fê Cacenote, fotógrafa amadora (por amor) e profissional (por profissão) no projeto FEMMA Registros Fotográficos. Viajante espacial do mundo das ideias, colaboradora na Casa da Mãe Joanna, Casa de Cultura Vaca Profana, Coletivo Feminista Maria, vem com as outras!.  Vegetariana, amante das coisas que a natureza nos dá e feminista em eterna (des)construção e aprendizado.
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Comunicação social, educação e feminismo – não necessariamente nessa ordem. Já trabalhei em agências, produtoras, departamentos de marketing, escolas, projetos sociais e até no Coliseu (esse mesmo). Tudo isso, em diferentes graus, em Porto Alegre, Florianópolis, Madri, Roma, Dublin e Londres, onde fiz um mestrado em Gênero, Mídia e Cultura pela LSE. Mas eu saí de Criciúma, SC.

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Acadêmica de Jornalismo e amante da fotografia, passeia entre o lírico do cotidiano e o drama de vidas reais. Uma jovem, louca, livre e solta. Sonha com igualdade e justiça social.

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Formada em jornalismo e apaixonada por pixels, trabalha com projetos de mídia. Faz do feminismo seu impulso diário.

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