Um pouco sobre música, canto e feminismo
Um intérprete é alguém que se apropria das músicas para si, e o faz sua a partir de sua estrada, potência vocal e performance. Um intérprete é tão, ou mais, poderoso que o compositor. Músicas acontecem a partir da voz. É o canto que põe a música em pé, que nos contamina, que nos eleva e, por isso, certas interpretações tornam-se definitivas, únicas, porque sempre teremos em nossas memórias a referência mais potente.
Se a gente espera que um disco feminista seja feito 100% por mulheres, das composições aos músicos, passando pelos produtores e técnicos envolvidos, vamos ter que esperar tricotando. Porque o mundo musical é essencialmente um mundo de homens. Às mulheres, historicamente, restou o espaço do canto, porque o “mercado” pedia. Mas quantas musicistas estão ali, na linha de frente, tendo o passe disputado?
Se a gente pensa que foi só com Clara Nunes que tivemos a primeira mulher a quebrar o recorde de vendagens dos homens, isso em 74, entendemos a dimensão do problema. Mesmo depois, de Elizeth Cardoso, Dolores Duran, das irmãs Batista, de Dalva de Oliveira, de Ângela Maria, de Maysa, de tantas e tantas mulheres, ainda se ouvia como uma verdade: “mulher não vende disco”. Clara estourou e abriu a porta para uma série de outras cantoras e sambistas.
Com tudo isso eu quero dizer o seguinte: homens machistas podem e vão continuar compondo para grandes cantoras. Assediadores continuarão a produzir discos, porque este é um território masculino. Todas as mulheres, e não só Elza Soares, que sobreviveram a esse espaço precisaram aprender a lidar e calar o machismo que enfrentaram. Muitas dessas mulheres eram de uma época em que uma artista, cantora era sinônimo de prostituta. Imaginem.
Maysa, que era branca e rica, rica mesmo, sofreu horrores na sua vida pessoal por escolher cantar. Teve que, praticamente, escolher entre o filho ou a carreira. Era alcoólatra e morreu aos 40 anos num acidente de carro, em que ela estava dirigindo.
Dolores Duran teve que abandonar os estudos aos 12 anos, para abandonar a família. Aprendeu sozinha a cantar em diversas línguas estrangeiras. Foi uma de nossas grandes compositoras. Casou-se e pouco tempo depois descobriu que o marido impediu sua mãe (a de Dolores) de ir ao casamento por ser negra. Este mesmo marido, era louco de ciúmes e não a queria deixar cantar mais. Sofreu um infarto fulminante aos 29 anos. Suas condições cardíacas foram agravadas pelo cigarro, remédios pra dormir e álcool, o trio da moda.
Dalva de Oliveira talvez tenha sido a primeira mulher a ter a vida dissecada nas revistas de fofoca. Casou-se com o também cantor e compositor Herivelto Martins, um macho típico, com direitos a traições e espancamentos. Quando finalmente se separou de Herivelto, este, como macho típico, plantou diversas matérias em revistas e jornais denunciando a “desquitada” como péssima mãe, amoral, devassa etc. O conselho tutelar retirou os filhos dela para… colocar num internato. O que a fez entrar em profunda depressão. Todos seus relacionamentos, como a maioria das outras cantoras, foi marcado por profundo ciúme da vida profissional. Clara Nunes, para ficarmos só no conhecido e não envolvermos os vivos, morreu devido a complicações de uma operação estética. Porque achava que suas varizes começavam a aparecer no palco quando dançava.
Então, meu povo, essas mulheres não conheceram o feminismo e, muito provavelmente, nem se diriam feministas. E no entanto foram e continuam sendo sobreviventes de um espaço extremamente misógino, em que todas tem que um grau maior ou menor de aceitação dessa cena, até que se passe a incluir mais mulheres nos conjuntos que as acompanham em shows, mais produtores musicais mulheres etc.
A mim, não me interessa particularmente, a discussão de quem compôs o quê. Quando uma mulher abre a boca e canta, aquele canto é dela, aquela assinatura é dela. Se os machos por trás vão se dar bem? Claro que vão. Óbvio que vão. Vão colocar mais esse pin em suas carreiras. Querer tirar, no cara e coroa, o nó de algo tão complexo como a relação entre a cena musical machista e o lugar da mulher nela é que não dá.
Estudem, ouçam, entendam.
Por Giovanna Dealtry
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