Quando as mulheres não choram

A ideia de que existe um falo masculino ao redor do qual nós mulheres orbitamos durante toda nossa vida é algo tão presente que quando isso se representa de outra forma na realidade, a sociedade imediatamente quer encontrar formas de continuar justificando toda a filosofia criada por centenas de anos de patriarcado para que tudo possa continuar na sua mais perfeita ordem da tradição, família e propriedade.

Explico.

Meu processo de separação findou em uma manhã ensolarada de primavera entre choros, abraços e muito afeto envolvido.

Essa imagem imaculada de uma separação bem sucedida só poderia ser seguida de outra imagem que atesta hoje a sanidade mental das mulheres: a de que, agora, seria tempo de chorar, procurar amigas, comer chocolates, buscar um psicanalista e se re-estabelecer entre choros infindáveis nos ombros de outras mulheres que certamente me consolariam com frases do tipo “…agora é cuidar dos filhos e pensar em você.”

Mas eu, por um motivo inexplicável, resolvi que mancharia esse quadro angelical, atestando conscientemente minha “insanidade mental.”

Eu me apaixonei antes do chocolate, do choro, do psicanalista.

Pedindo licença para Platão fui além, transformei isso de ideia em realidade, estou vivendo em carne osso e afins esse sentimento.

Durante um tempo anterior à minha separação, eu remei contra a corrente da casta sociedade civil e resolvi que o falo pelo qual havia sido ensinada a orbitar deixaria de ter um papel fundamental na minha vida e que tudo seria construído não mais na imagem de um sistema heliocêntrico e sim em forma de uma espiral constante, fluída, mutável e sem um centro. Porque orbitar em uma parábola fechada não era o mais válido para mim e sim movimentar-se sem saber onde isso tudo vai dar, vivenciando a abertura e a finitude dos processos da vida.

Esse poder gerado pela retirada do ponto de equilíbrio masculino como ser mitológico que dá e mostra o sentido da minha vida, me fez uma mulher livre.

E a liberdade de uma mulher que se sente capaz de amar novamente a torna insana, de uma insanidade que suscita questionamentos e julgamentos.

Questionamentos sobre o perigo eminente de uma mãe que ama de verdade (e com tesão), questionamentos sobre o quão nocivo para a sociedade pode ser um testemunho de uma mulher que ama de novo e de novo, que mantém firme a crença de que vale sempre a crença no outro, que as relações são preciosos eventos que mantém a vida em movimento, do perigo que ela pode ter se tornado quando não chora mais pelo falo perdido e sim sorri pela liberdade do prazer que acabou de ganhar.

O perigo que uma mulher que faz suas próprias escolhas tem em gerar seres humanos que transitam através de novas óticas e percepções sobre suas escolhas, onde o certo e o errado são conceitos construídos em regras próprias, tirando da sociedade o seu poder de manipulação. Isso fere e preocupa, do mediano que faz igual até o conservador que teme.

Essa escolha de ser livre é dolorosa e cheia de dúvidas, e só pode ser sustentada por uma pergunta muito simples que podemos fazer a nós mesmas: “Quem é a protagonista desta história?”

Percebam: eu não pergunto quem está no centro da história, porque em momentos distintos pessoas e coisas ocupam esse centro. Minha pergunta é quem está por detrás de tudo e mantém o leme desse barco?

De natureza livre e selvagem somos feitas, nós mulheres (pós)modernas, correndo pelos campos novos. Aos olhos dos menos avisados parece insanidade o que trata-se de liberdade. Aceite, respeite e, se conseguir, admire.

Acredito hoje que temos o direito de sofrer pelo fim dos vínculos que criamos na vida, e cada qual da sua maneira. Mas nós mulheres também temos o direito de não sofrermos quando no lugar da dor há o amor. Temos o direito de não nos curarmos de coisa alguma que alguém possa pensar que temos, porque a ferida aberta foi curada no momento em que decidimos protagonizar nossa própria história.

Acontece que protagonizar a própria vida no caso de uma mulher é visto ainda pela sociedade patriarcal como uma filosofia.

Mas eu queria dizer ao patriarcado que, no meu caso, esta filosofia se tornou realidade. E que não existe nada mais prazeroso que poder estar no leme da minha vida, escolhendo quem (e quando) compartilha da brisa fresca que descobri navegando esse fluxo novo, onde não existe centro para me nortear, só mesmo a delicadeza do vento que resolve para que lado vai soprar a minha vela.

 

Por Milene Mizuta

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Uma psicóloga feminista em luta por mais afeto. Implica com a linguagem sexista e acaba com a graça em piadas machistas. Vive de amores. É uma multidão e explosão de sentimentos. Inquieta, teimosa e bruxa, tem fé nos encontros do mundo.

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Artista, artesã, designer – é o que costumo colocar nos cartões de visita. Ler e acumular livros de variados assuntos são tradições familiares. Já sonhei ser arqueóloga, pensei em cursar História, Filosofia, Sociologia ou Arquitetura, mas acabei escolhendo Artes, onde posso misturar tudo isso. Gosto de viajar pelo mundo, mas sempre volto para casa. Sou curiosa por natureza e tímida que fala pelos cotovelos se tomar muito café ou vinho. Mãe por opção e determinação. Para uns, sou muito certinha e para outros, muito doida. Na verdade, sou um pouco de cada.”

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Camila França

Camila França
Formada em Moda pela Udesc (2005) e pósgraduada pelo SENAC (2009) em Florianópolis, trabalhou por oito anos na indústria da moda como estilista. Em 2013, partiu em busca de qualidade de vida e atualmente dedica quase todo seu tempo ao desenho. Frequenta aulas de Artes Visuais a fim de conhecer e desenvolver sua própria poética. Seus desenhos exploram o universo feminino com técnica mista, grafite, nanquim, aquarela, marcadores e tinta acrílica.

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Jornalismo é a formação, produção de moda é o ganha-pão, escrita é a paixão. Radicada em Londres há mais de uma década, estudou no London College of Communication e depois foi trabalhar com um bocado de gente grande, de Adidas à Ivete Sangalo, da TPM à Vice, e gostaria de largar tudo e só escrever. Além de feminista, é progressista, ateísta, e uma porção de *istas* que causam desconforto por onde passa. Mãe de uma garotinha de 4 anos, com quem divide uma paixão por filmes japoneses e contos de fadas subversivos.

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Thainá Battesini Teixeira, é gaúcha e tem 23 anos. Está no último ano de graduação em História pela Universidade de Passo Fundo – UPF e é bolsista de iniciação cientifica – CNPq pesquisando as Fontes Visuais Impressas: Possibilidades de Pesquisa: Os papéis sociais atribuídos ao gênero feminino na Revista KodaK. Milita pelo Coletivo Feminista Maria, vem com as outras! e participa da organização da Marcha das Vadias de Passo Fundo no Rio Grande do Sul.

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Formada em jornalismo, é  goiana, vira-lata, caçula de sete e doidinha de amores pela vida.
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Em 22 anos de Porto Alegre (RS), cursou Comunicação Social sem ter certeza do que estava fazendo – e formou-se jornalista sem destino definido. Felizmente, está se realizando na esquina entre o feminismo e a informação. Escreve para (sobre)viver, aventura-se no audiovisual e é fascinada por todo tipo de linguagem. Aparece regularmente por aqui.

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Murilo Mattei

Estou me graduando em ciências sociais pela UFSC, interessado em tudo que possibilita questionar a condição humana e os infinitos problemas derivados do pensar abstrato; consumidor assiduo do incomum, non-sense, trash-cômico e da musica contemporanêa, crio musicas como “vinolimbo”.

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Lucas Rezende Busato
Homem, branco, cis, hétero, reconhecedor do próprio privilégio: FEMINISTA.
Arquiteto e designer por formação, [des]construtor de espaços por ideologia.
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Belle Kurves likes to cock a snook at the whole silly patriarchal system.
An explorer, Belle is about to set sail on a voyage of discovery that will be  her toughest expedition yet.  Look out for her dispatches from the frontier as Belle Kurves embarks on a quest to find the “new truth” foreshadowed by Hester Prynne – the key to establishing “the whole relation between man and woman [indeed all genders] on a surer ground of mutual happiness.
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Advogada especialista em direito público e de família, vegetariana e meia maratonista. Não convida se não tiver vinho. Chora toda vez que vê uma ovelha.

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Beatriz Demboski Burigo

Estou no caminho pra uma graduação em Ciências Sociais, na UFSC em Florianópolis. Gosto muito do ativismo dos movimentos sociais, mas a minha praia mesmo é o backstage e o olhar sociológico sobre tudo. Sou de humanas, mas nem tanto! Amo antropologia, assim como amo falar sobre cultura pop, gênero e feminismo. No momento, pesquiso oficialmente sobre sociologia da educação, que é mais uma de minhas áreas de interesse.

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Ana Paula Ferraz

Uma figura que vai variando entre a curiosidade sobre pessoas e lugares e o interesse por culturas e olhares. Psicóloga, metida com psicanálise, política e sociedade. Poeta de boteco, cervejeira de calçada, cantora de chuveiro. Enfim, mais um mistério do planeta.

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Ana Emilia Cardoso
A meliante Ana Emília Cardoso é uma jornalista curitibana, com passagem por Florianópolis onde esteve detenta em mestrado de Sociologia Política. Por questões de segurança foi transferida para Porto Alegre e está em liberdade condicional. Trabalha com moda e pesquisas, tem 2 filhas, um marido famoso e acredita que pode mudar o mundo empoderando as mulheres.
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Arieli Corrêa

Vestibulanda de letras. Desengonçada com a vida e jeitosa com as palavras. Possui diversos pseudônimos, intencionada a desnudar-se de aparência e travestir sua alma com novas visões de mundo. Queria ser Maria. Descobriu-se feminista há não muito tempo, e tem muito que aprender.

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Fernanda Cacenote
Fê Cacenote, fotógrafa amadora (por amor) e profissional (por profissão) no projeto FEMMA Registros Fotográficos. Viajante espacial do mundo das ideias, colaboradora na Casa da Mãe Joanna, Casa de Cultura Vaca Profana, Coletivo Feminista Maria, vem com as outras!.  Vegetariana, amante das coisas que a natureza nos dá e feminista em eterna (des)construção e aprendizado.
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Joanna Burigo

Comunicação social, educação e feminismo – não necessariamente nessa ordem. Já trabalhei em agências, produtoras, departamentos de marketing, escolas, projetos sociais e até no Coliseu (esse mesmo). Tudo isso, em diferentes graus, em Porto Alegre, Florianópolis, Madri, Roma, Dublin e Londres, onde fiz um mestrado em Gênero, Mídia e Cultura pela LSE. Mas eu saí de Criciúma, SC.

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Maitê Weschenfelder

Acadêmica de Jornalismo e amante da fotografia, passeia entre o lírico do cotidiano e o drama de vidas reais. Uma jovem, louca, livre e solta. Sonha com igualdade e justiça social.

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Formada em jornalismo e apaixonada por pixels, trabalha com projetos de mídia. Faz do feminismo seu impulso diário.

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