Abuso, medo e sequelas
Eu vou tentar, eu vou tentar. Vou tentar escrever sobre esse episódio que tanto me dói e que de tanto doer – uma dor que parece que passa, mas depois volta, sempre volta, cada vez com novos insights – … que de tanto doer, talvez me mate.
Perdoem-me a pontuação estranha, a escrita experimental, o flerte com a poesia. É que só assim, borrifando os fatos com algo de poético, com um certo devaneio, é que talvez eu consiga contar o que aconteceu. Talvez.
O fato é que é difícil encarar esse fato de frente. E encará-lo como o horror que foi. Eu não sabia o que era “stress pós-traumático”, imaginava que nunca viveria isso, mas de repente eu me vejo nessa situação, com dores, com traumas, com choros altos que deveriam ter sido chorados naquela hora, mas que foram substituídos pelo instinto de defesa e sobrevivência do pensamento cheio de ódio e agressivo.
Primeiramente, devo contar a vocês que minha família é muito unida (ou se acha muito unida), unida como uma família de mafiosos (a analogia é um pouco exagerada, mas é a única que me ocorre). Não o tipo de família unida onde todos gostam da presença uns dos outros e brincam uns com os outros e dão palpites sobre a vida uns dos outros, aquela típica bagunça de família unida no sentido estrito da palavra. Não somos amigos uns dos outros, nunca fomos. Mas eu demorei para perceber.
Sou a caçula de uma família de três filhos, os dois mais velhos, homens, portanto sou a caçula e única mulher. Sempre idolatrei meus irmãos. Tudo que eles faziam era tão divertido, eu queria participar de tudo, eu queria fazer parte, ser da gang, pertencer. Isso nunca aconteceu. Sabe como é, portas fechadas às meninas. Mas eu não entendia, eu sabia que tinha tanto para aprender com eles, só coisas boas poderiam sair daquela interação, mas eles não pensavam da mesma forma. Eu criei uma fantasia de que eles me amavam muito, de que eles gostavam de mim sim, mesmo não me querendo por perto, de que eles me defenderiam sempre que fosse necessário.
Mas eu não sabia que eles cresceriam e seriam do tipo que desvalorizam o pensamento, a dor, a emoção, a sensibilidade de uma mulher. Eu não sabia que eles seriam do tipo desconfiados, aqueles que a gente conhece muito bem, que sempre questionam um pouco a mais, investigam mais a fundo qualquer fato, relato ou vivência feminina. Somos bruxas, afinal, não se pode confiar na gente. (ironia)
Então, ao invés de crescer como uma moleca, conhecendo muito do universo masculino, conhecendo tanto as partes fascinantes de como eles pensam ou agem, quanto suas bobeiras, seus erros idiotas, sua maneira de pensar por vezes tão cartesiana, eu cresci apenas admirando-os. Querendo tê-los e querendo ser como eles. Eu tinha apenas a oportunidade de entrar naquele universo quando eles não estavam por perto. Aí ouvia os discos e dançava ao som de Faroeste Caboclo; “lia” as Playboys, as Mads e as revistas muito mais explícitas, digamos assim, e me excitava, obviamente. Desfrutava escondida do mundo masculino, querendo saber muito mais, querendo a desmistificação, mas continuando com o inatingível. A relação com meu pai era ainda mais distante.
Conto tudo isso para vocês entenderem o puta amor e a puta admiração que eu tinha por aqueles caras. Ou deveria dizer “idealização”?
Essa mistura acabou gerando um certo fascínio e ao mesmo tempo nojo pela figura masculina. Acabou gerando o que, do ponto de vista de alguns, seria uma ninfomaníaca. Ou por outros pontos de vista, uma adolescente curiosa, ávida por experimentar e uma jovem/adulta bem resolvida com sua sexualidade.
Era a busca por amor e aceitação que tanto me faltou na infância. Era a busca por ser vista, por ser enxergada, por ser parte do universo masculino. Preenchi esse vazio com sexo. Não que eu fosse uma devassa, na verdade eu era uma monogâmica em série. Também como sempre gostei de escrever, gostava de escrever sobre sexo, falava abertamente sobre isso nas mídias sociais, cheguei a escrever alguns contos eróticos.
Paralelamente a isso, tive “problemas psiquiátricos”: depressão, distimia, transtorno de personalidade borderline, transtorno bipolar do humor… são alguns dos diagnósticos que já tive. Então havia sempre essa luta e mesmo assim eu ainda conseguia ser feliz com meu jeito liberado e despachado de ser. Acredito até que essa vida sexual intensa para alguns parâmetros me levou a ser mais liberada com os homens, não no sentido de seduzir o tempo todo, mas me fazendo perder o medo da figura masculina e poder conversar de igual para igual, entendem?
Eu também acabei virando um tanto quanto polêmica e desbocada. Nada demais para muitas de vocês e para a realidade social e familiar de vocês. Eu até achei que para a minha também não. Ora, somos modernos – pensava eu – Ora, ele me aceitam como eu sou – delirava eu.
Até que um dia eu tive um surto. Estava lendo Mulheres que Correm com os Lobos e comecei a sentir o quanto eu era presa, comecei a enxergar a gaiola em que vivia, mas minha reação foi talvez infantil. Fui falar com meus pais, já entrando em desespero, tentando explicar para eles o quanto eu vivia numa prisão, o quanto eu me sentia não sendo ouvida e como eles contribuíram para que as coisas chegassem a esse ponto.
Bem, não foi a primeira vez que me exaltei de alguma forma. Eu não saía da realidade, mas algo explodia em mim e eu gritava, reclamava, me lamentava, chorava. Sei que não era fácil para meus familiares conviverem com isso e ainda assim aceitar que eu poderia ser uma mulher livre, criativa, artística, liberal.
Bom, mas no dia em que lia Mulheres que Correm com os Lobos, eu fui surpreendida no meio da discussão pela minha cunhada, que mora ao lado de minha casa. Chegou gritando comigo e dizendo chega. Dei um tapa na cara dela e ela devolveu. Ok, olho por olho, dente por dente, entre mulheres. Estávamos quites. Até que chegou meu irmão mais velho. Lembro de vê-lo entrando pela garagem, a passos largos e com olhar de fúria. Eu estava na cozinha e de repente já estava prensada contra a parede. Ele me apertava, eu sentia a parede em meu corpo inteiro, meu rosto colado a ela. Junto a isso, ouvia algumas coisas das quais não me lembro bem, mas eram palavras de ódio, eram palavras do tipo, “vamos lá, quero ver se você pode com isso”, coisas do tipo, sabe… Demonstração de força.
Ele me largou por um momento e eu, ao invés de fugir, quis enfrentar, falando algo provocativo. Foi aí que me vi no chão, de barriga para baixo, esmagada contra o piso da cozinha, exatamente em frente à geladeira. Aquele lugar se tornou um ponto de dor para mim: o espaço que fica em frente à geladeira. Foi ali que, pela primeira vez, senti a força esmagadora masculina. Eu de barriga, pernas, rosto esmagado ao chão e ele em cima de mim, meu irmão. E falava coisas duras, expressava sua raiva que não vinha daquele único momento que estávamos vivendo, vinha de muitas outras coisas.
Ela debochava de mim porque contra essa força masculina eu nada podia, sabe? Eu não me rendi, lutei para sair daquela posição, até que o cansaço foi maior e eu me entreguei. Instinto de sobrevivência novamente. Meu corpo gastaria menos energia se eu deixasse ele me esmagar, se eu me entregasse para aquele momento de violência. Coisas que fazem muito sentido passam pela cabeça da gente numa hora dessas. E o que passou pela minha cabeça foi: aceita, deixa, se entrega, vai passar.
Mas comecei a sufocar.
Sabe, mais do que o rosto, o pescoço já estava prensado contra o chão. Não sei qual é o nome desse golpe, mas dava para sentir o antebraço dele na minha nuca, pressionando minha garganta contra o chão e, naquele momento eu até me admirei com a possibilidade de deixar uma pessoa sem ar simplesmente estando deitado em cima dela. Mas, deu de devaneios. Eu falei que estava sufocando. Eu via apenas os pés da minha mãe (sim, ela estava ali do meu lado) e falava pra ela, “mãe, eu tô sufocando”, assim como dizia a mesma coisa ao meu irmão. Ele não acreditou. Debochou, riu. E eu falei algumas vezes, “é sério, eu estou sufocando, to sem ar”. Ele não me largava, eu continuava perdendo o ar. Até que falei algo do tipo, “por favor, para um pouco, depois você continua, eu vou morrer”. Ele saiu de cima de mim, então. Tentei já sem forças correr para meu quarto. Só queria que aquilo acabasse. Mas não tive como correr rápido o suficiente. Na verdade, atravessei o corredor cambaleando em direção ao meu quarto. Ele veio atrás.
Aí começou de fato a tortura psicológica. Ele gritava palavrões na minha cara, literalmente na minha cara, se aproximava do meu rosto e gritava palavrões e dizia “tá vendo? Eu também sei ser desbocado, eu também sei falar CARALHO, PORRA, PUTA QUE PARIU, VAI TOMAR NO CÚ” Escrevo em caps lock porque foi assim que ele gritava, a poucos centímetros do meu rosto. Eu chorava, pedia para parar, pedia para minha mãe tirar ele do quarto (ela acompanhou todo o processo e a única coisa que fez foi chorar ou talvez tentar separar a briga, como se houvesse uma briga a ser separada – não havia briga, só havia meu pânico, meu susto, minha surpresa em estar fazendo parte daquela cena, minha surpresa em ver meu irmão – meu herói – disparando tanto ódio contra mim).
Lembro que caí no chão, sentada, de tanto cansaço. Lembro que pedi água. Lembro que ele jogou uma garrafa de água mineral já aberta sobre mim. Lembro que disse “quero água, porra!”, minha garganta doía de tanto ter sido apertada contra o chão. Lembro que ele me disse “toma isso!”, querendo dizer para eu tomar porra se estava com sede. Ainda conto tudo isso com culpa, quando relato que falei para ele “tomo mesmo, sempre tomei”. Então ele começou a me mandar “dar a bunda”. Isso foi repetido várias vezes: vai dar a bunda. Não sei o porquê da obsessão, não sei se ele leu algum texto em que eu dizia que tudo era permitido entre quatro paredes, não sei. Só sei que ele falava repetidamente “vai dar a bunda! Tu não diz que faz de tudo? Então vai dar a bunda!”.
E doeu ter minha intimidade devassada desse jeito, doeu ver escancarado algo íntimo meu e, ao mesmo tempo, pensei “coitado ele acha que o máximo que se pode fazer de diferente no sexo é dar a bunda”. Mas não foi engraçado, eu não consegui me defender nem com ironia, nem com palavras. Ele falou mal também do livro que eu havia lançado alguns anos antes, falou como me apoiou, foi no lançamento, até vendeu o meu livro mesmo odiando tudo que eu escrevia. Senti vergonha. Senti que meu livro era um lixo e que ele tinha feito tanto em divulgá-lo, em vendê-lo. Senti vergonha de ter escrito.
Acredito que em algum ponto disso tudo eu desassociei. Porque peguei um livro de poemas de um poeta que gosto muito, pequei meu celular e uma carteira de cigarro e sentei na varanda do meu quarto porque eu não tinha para onde fugir.
Ali então ele sentou-se numa cadeira e começou a discorrer sobre como eu não era inteligente e que ele sim era inteligente. Então ele repassou a história de sucessos da vida dele e lembrou-me de todos os meus fracassos. Disse que eu me achava inteligente por ler muitos livros (eu tinha uma vasta biblioteca, que eu amava), mas que ele é que era inteligente, que eu era uma idiota, uma fracassada, coisas do tipo. Eu, já exausta, tentando encontrar um lugar confortável na minha mente para fugir daquela situação, ao menos mentalmente, me agarrava ao livro do meu poeta favorito. Enquanto isso ele debochava do meu livro e da minha atitude. Além de gritar também na minha cara – bem pertinho do meu rosto – que quando nosso pai morresse eu iria chorar copiosamente em cima do caixão, mas ele não, pois ele aproveitou os momentos com meu pai. Também falava sobre eu acabar num asilo ou numa instituição e que ele NUNCA, NUNCA iria me visitar.
Tudo aos berros, tudo com crueldade no falar, com suor e baba ao se aproximar do meu rosto. Nessa parte do relato me sinto cansada como se estivesse vivenciando tudo de novo. Não sei como consegui, mas acabei me trancando no banheiro e sentada no chão do banheiro consegui um suposto alívio. Liguei para um ex-namorado que sabia de muitos dos meu problemas e pedi que viesse com urgência. Ele chegou em minha casa, mas eu não me atrevi a sair de dentro do banheiro. Ele entrou lá rapidamente porque eu estava com medo de que no simples fato de ele abrir a porta alguém entrasse para continuar a me atacar. Então ele entrou, trancou a porta e sentou-se do meu lado no chão.
Não lembro de mais nada. Nem dos momentos subsequentes, nem dos dias que se seguiram. Fatos de meses após o acontecido se misturam na minha cabeça. Meu arrependimento maior é não ter saído de lá e ido direto para a Delegacia da Mulher. Estava cheia de marcas, estava destruída psiquicamente e com uma dor no pescoço e na garganta que durou alguns dias.
Que violência pratiquei contra mim mesma ao não denunciar a violência que sofri!
Depois de passado certo tempo, virei uma pessoa extremamente recatada, nas roupas, nos gestos, no agir. Não falo mais palavrão. Não consegui mais escrever – e, devo dizer, minha escrita era libertadora, não só para mim, como para muitas pessoas – por um tempo tentei escrever só coisas bonitas e doces, como que me desculpando pelo estilo provocativo que era marca da minha escrita. Depois disso botei fogo nos meus livros (em quase todos), me desfiz de peças íntimas provocantes, passei a me envergonhar exageradamente do meu passado. Perdi a vontade de me cuidar, de ficar bonita, ainda não consegui reencontrar minha sensualidade (isso após dois anos desse acontecimento).
Minha coluna envergou um pouco e constantemente meu corpo dói sem motivo algum. Não sorrio mais tanto. Não dou risadas como antes. Ainda sofro. O sofrimento maior foi por ninguém ter feito nada para parar aquilo: minha mãe, meu pai, minha cunhada, sei lá, talvez até algum vizinho. Não. Deixaram ele continuar, deixaram ele descarregar toda a fúria que sentia sobre mim. Foram coniventes com a humilhação, com a violência sobre meu corpo, com os gritos na minha cara.
Sabe como você se sente sendo vítima de violência? Dentre tantos sentimentos, um deles é de ter tido seu corpo, sua intimidade e seu espaço invadido. É dolorosa e deixa uma sensação de medo, uma sensação de não estar protegida.
Depois disso já me afundei na cocaína algumas vezes. Tentei mudar para São Paulo com ajuda de uma amiga que me recebeu em sua casa, mas eu estava tão fraca que não consegui ficar nem dois dias. Decidi parar com a droga, mas tive recaídas. Fui internada há pouco tempo para desintoxicação e saí de lá com a esperança de que as coisas iriam melhorar, mas eu continuo me sentindo fraca, desprotegida, com medo e muito cansada.
Às vezes tenho insights sobre aquele dia e sobre como meus pais assistiram a tudo calados. O insight de hoje foi que se alguém fizesse o que meu irmão fez comigo ao nosso cachorro ou ao nosso gato, certamente qualquer um pularia em cima dessa pessoa e não permitiria que o bichinho passasse por aquilo.
Eu valho menos que um bicho, eu tenho menos direito à proteção do que um bicho, eu posso seu sufocada no chão da cozinha. Eu tenho que fazer de conta que nada aconteceu, porque afinal somos uma família muito unida. E não se estraga a união de uma família por causa de uma mulher que foi sufocada, esmagada, humilhada, humilhada, humilhada.
Nunca deixem de denunciar violência.
Mais até do que por justiça, mas pela saúde mental de vocês, queridas. Não pensem que podem encarar essa dor sozinha, como eu fiz. Não pensem que podem fingir perdoar e tentar conviver, como eu fiz. Não se machuquem mais do que já te machucaram, como eu fiz.
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O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), em 2005, para servir de canal direto de orientação sobre direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o país (a ligação é gratuita). Central de atendimento à Mulher
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