Lesbianidade, bucetas e transfobia
Uma vez eu escrevi na rua “Minha Pussy é o poder”. Talvez hoje eu não escrevesse essa frase. Alguns anos se passaram e minha relação com os feminismos amadureceu e se transformou. Essa frase me faz lembrar um feminismo pautado em liberdades falsas e forjadas.
Mas a questão não é essa.
Acontece que junto com a frase eu desenhei o símbolo do feminino. E eu fui criticada por isso: me disseram que revolucionário mesmo seria se eu desenhasse, do lado daquela frase, o símbolo do masculino. Aí sim seria libertário e transgressor.
Eu já escutei de várias pessoas trans com quem já tive algum convívio, que associar bucetas à mulheridade é transfóbico e excludente. Acontece que eu sou uma mulher lésbica, e na construção da minha identidade de SAPATÃO e de tantas outras por aí, a buceta é um signo de resistência muito cabuloso. Na construção do nosso desejo, da nossa subjetividade, da nossa história: a buceta está lá.
Sei que esse é um assunto delicado, mas não podemos ter medo de falar dele: VOCÊS PRECISAM RESPEITAR NOSSOS SÍMBOLOS.
Não estamos falando do hegemônico. Estamos falando de identidades subalternas, oprimidas, discriminadas e violentadas também: mulheres lésbicas.
Estamos falando de mulher que gosta de mulher. Estamos falando de mulher que gosta de mulher em um mundo que é perigoso ser mulher e é perigoso ser uma mulher que gosta de mulher.
A dominação patriarcal sobre as mulheres foi (e ainda é) muito baseada em nossos corpos. Nós somos aquelas cujos corpos são incompletos. Falta aquilo que em tese nos concederia poder e racionalidade.
Falta.
Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.Falta.
A buceta é território proibido até hoje. Ela pode ficar escancarada no filme pornô e na playboy. SÓ.
Enquanto a anatomia do pênis era conhecida há décadas, o CLITÓRIS continuava quase como uma lenda urbana. Por isso, nada mais justo que exaltar e enaltecer a buceta. E quem bem sabe fazer isso são as sapatão.
Falar de buceta e de lesbianidade NÃO é negar a existência de mulheres (e lésbicas) que não têm buceta; nem significa dizer que só mulher tem buceta. A mulheridade existe de diversas formas e é reinventada a cada dia. E que bom!
Mas deixa as sapatão falar de BUCETA, de COLAR VELCRO, de GRELO e de SIRIRICA, ok?
Por Mariah Gama, feminista lésbica de 20 anos, integrante da coletiva Corpolítica e atual coordenadora da Rede Nacional de Adolescentes LGBT.
Imagem destacada: Wikimedia Commons
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